Foi praticamente impossível não me interessar por um enredo onde uma mulher se sobressai em uma sociedade arcaica e extremamente machista. Em Uma Sombra Ardente e Brilhante, conhecemos a personagem Henrietta Howel, a primeira feiticeira em séculos. Mais do que isso, Nettie é a garota profetizada, que nasceu para salvar o mundo dos Ancestrais: "uma menina de origem feiticeira se levanta das cinzas de uma vida, vós deveis vislumbrá-la quando a Sombra queimar na Neblina de uma cidade reluzente". Apesar de possuir algumas ressalvas, me surpreendi bastante com a primeira obra de Jessica Cluess.

A trama, que se passa na Inglaterra, gira em torno da destruição dos Sete Ancestrais — "demônios" que foram invocados por um mago há milhares de anos —, que estão destruindo a humanidade e precisam ser detidos a todo custo. É aí que entra Henrietta, feiticeira, mulher e negra, que apesar de ser capaz de criar e controlar o fogo, possui uma grande dificuldade de ser aceita e respeitada pelos outros feiticeiros, que são todos homens. Apesar de a história acontecer em um século extremamente distante do nosso, Cluess conseguiu desenvolver bem o tema "machismo".


Nunca vou me casar. Nenhum homem me deixaria participar de batalhas, e eu não iria querer ninguém que pudesse me impedir de cumprir o meu dever.

Por exemplo, apesar de ser a única feiticeira mulher do mundo e de demonstrar ser extremamente poderosa — mesmo tendo sido treinada por um tempo infinitas vezes mais curto do que os seus colegas feiticeiros —, Nettie tem que fazer no mínimo o dobro de esforço que Blackwood ou qualquer outro dos meninos para receber a mesma "dose" de respeito. Obviamente isso me deixava irritada o tempo todo, pois é muito difícil para mim aceitar uma coisa dessas, independente do século ou qualquer coisa que seja. 

Ainda nesse aspecto, me incomodei bastante com o comportamento e falas de alguns personagens do livro. Lá pela página 200, por exemplo, há um acontecimento e um dos personagens diz isso como argumento: "O problema é que os feiticeiros ingleses não estudam a bíblia. Primeira Carta de Paulo a Timóteo: 'A mulher ouça a instrução em silêncio, com espírito de submissão. Não permito à mulher que ensine nem que se arrogue autoridade sobre o homem' [...] Ela não é uma de nós". Nem preciso dizer minha cara quando eu li isso, né? Mas acredito que o propósito da autora foi realmente causar esse desconforto, até porque estamos no século 21 e ainda ouvimos discursos como esses.

Eu realmente adorei esse protagonismo feminino e achei que ele foi muito bem inserido na trama. Todos os personagens são essenciais — até aquele vilão chato que a gente torce o nariz — e bem apresentados, mesmo tendo alguns com a personalidade bem boba. A escrita de Jessica Cluess é daquelas que começa lenta, tímida, mas vai conquistando com o passar das páginas, na medida que a história se desenvolve. Tendo em vista esse volume, acredito que a autora seja muito inteligente, do tipo que vai entregando as informações aos poucos, para nós mesmos especularmos algumas coisas.

Nenhuma vida inocente é mais valiosa do que outra. Nunca.

O que me desagradou realmente foi a inserção de um triângulo amoroso, apesar de não ser o ponto central do livro. Não há nada de novo nesse tipo de romance, mas o pior de tudo é que, na minha opinião, não havia tanto espaço assim na história para relacionamentos amorosos logo nesse primeiro volume. Resumindo, foi desnecessário sim, Deus me defenderay. Nesse sentido, posso dizer que Henrietta consegue ser bastante ingênua. Outro ponto negativo são algumas cenas e diálogos infantis envolvendo esses mesmos personagens, inclusive a protagonista. Na minha cabeça não faz sentido algum Nettie se mostrar uma pessoa cheia de confiança que se impõe e, na página seguinte, agir uma como uma criança de seis anos de idade.

De um modo geral, Uma Sombra Ardente e Brilhante foi uma leitura bastante satisfatória. Algumas pontas ficaram soltas, mas segundo as informações da internet, é uma trilogia, então ainda tem muito material para ser explorado. O que eu espero, sinceramente, é que Jessica Cluess foque um pouco mais na Era Vitoriana, na história dos Ancestrais, dos feiticeiros, magos e bruxos, porque é justamente isso o que chama atenção para essa história. É um primeiro volume muito promissor, mas a história em si pode ser melhor desenvolvida no restante da trilogia.

Título Original: A Shadow Bright and Burning

Autora: Jessica Cluess

Páginas: 336

Tradução: Carla Bitelli

Editora: Galera Record

Livro recebido em parceria com a editora