A Porta, de Magda Szabó, é uma autobiografia com partes de ficção. O livro tem um tom de mistério, mas é a história de uma relação de dependência entre duas mulheres na Budapeste dos anos 50: Magda e sua governanta, Emerenc. Logo na primeira página Magda, a narradora, nos revela um segredo sombrio que serve como isca para fisgar a nós, leitores. Afinal, já sabemos desde o início o que acontece no final da trama, mas quais os caminhos levaram a ele?
Magda é uma escritora privilegiada que está virando alguém importante no seu país, enquanto Emerenc faz parte da classe mais baixa da sociedade, não possui educação, mas é extremamente esforçada no seu trabalho, mesmo com a idade avançada. Logo de cara, o leitor começa a questionar como existe uma amizade entre essas duas. Será que existe algum saldo devedor de uma com a outra? São muitos segredos e rumores sobre Emerenc circulando na comunidade delas.
Vou ser sincera e dizer que não foi uma leitura que me pegou desde a primeira página. É uma narrativa meio rebuscada e lenta, exatamente como a gente se sente lendo uma biografia ou até mesmo um livro escrito em outra época — que é o caso de A Porta —, mas as partes fictícias vão te mantendo ali na leitura junto de Magda e Emerenc. A parte considerada "mistério" do livro é interessante, mas falhou em me cativar por causa das protagonistas.
Emerence possui uma arrogância por ser uma pessoa que faz trabalhos manuais, pesados, ignorando quem trabalha intelectualmente. Faz sentido com o contexto dela? Sim, mas tipo… Não sei explicar exatamente o que me incomodou. Nesse sentido, Magda me chamou atenção por ser quase que uma escapista na relação, tentando agradar e compreender o poço de mistério e segredos que Emerenc é, o que reverte os papéis pré-estabelecidos pela sociedade quando se fala de classes, profissões, relacionamentos. É uma crítica social bem interessante, principalmente Szabó vivenciou o comunismo na Hungria.
A Porta possui uma ambientação obscura, muitas perguntas na cabeça do leitor que tenta entender como funciona a dinâmica entre Magda e Emerenc. Em alguns momentos a narrativa parece repetitiva, mas a história te prende, tanto quanto Magda, você precisa entender Emerenc, você quer descobrir os segredos dela. Um livro que fala sobre aceitação (mesmo que nem sempre em via dupla), amizade, dignidade do outro e envelhecer. A Porta é uma metáfora, quais são as barreiras que levantamos, as portas entre nós e o outro que nunca abrimos, por que fazemos isso e em que medida isso é positivo ou negativo?
A quem interessar, a obra já foi adaptada para o cinema em 2012: Atrás da Porta traz no elenco Helen Mirren como Emerenc e Martina Gedeck como Magda, mas não foi muito bem avaliado pela crítica e pela audiência.
Título Original: Az Ajtó ✦ Autora: Magda Szabó
Páginas: 256 ✦ Tradução: Edith Elek ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora
