"Lydia está morta. Mas eles ainda não sabem disso. Dia 3 de maio de 1977, seis e meia da manhã, ninguém sabe nada a não ser por este fato inofensivo: Lydia está atrasada para o café da manhã": assim começa Tudo o que Nunca Contei, romance de estreia da norte americana filha de chineses, Celeste Ng. Levando o leitor a acreditar que se trata de um romance policial, um thriller, Celeste entrega muito mais, ela nos presenteia com uma história complexa, emocionante e cheia de camadas.
Esse livro está naquela categoria de livros que são muito mais do que parecem ser. Enquanto uma investigação é feita para tentar descobrir o que aconteceu com Lydia, acompanhamos a família dela desmoronar. E ao mesmo tempo que vemos os membros da família Lee tentando lidar com essa perda, conhecemos um pouco mais cada um: o pai, James, a mãe, Marilyn, o irmão mais velho, Nath, e a irmã caçula, Hannah, todos orbitando ao redor de Lydia, o centro e o pilar da família Lee.
Pra mim, o mais significativo dessa história é o drama familiar, é conhecer como essa família estava configurada e perceber como a ausência de uma pessoa pode mexer com todo o resto. Mas ainda tem mais: a história oscila no tempo e nos conta sobre as vidas de James e Marilyn, desde a infância, passando por quando se conheceram e mostrando todo o desenvolvimento do relacionamento deles. James e Marilyn deixam de ser apenas os pais de Lydia e são mostrados como realmente são, pessoas completas, com suas próprias inseguranças e potencialidades. E nesse ponto a autora insere ainda mais camadas em sua história.
Passado e presente aparecem para mostrar porque as pessoas são como são, porque Marilyn coloca tantas expectativas em cima da vida profissional de Lydia, porque James quer tanto que Lydia seja uma garota comunicativa e popular e porque Nath e Hannah são apenas coadjuvantes nessa família. O livro é narrado em terceira pessoa e alterna os pontos de vista, então, conhecemos todos os membros dessa família, seus pensamentos e emoções. Os pontos de vista de Nath e Hannah são riquíssimos e muito emocionantes. É extremamente difícil um livro me fazer chorar, e esse fez, em uma passagem que envolve Marilyn e Hannah.
Os cinco membros dessa família são explorados e todos recebem o espaço que merecem. São todos muito reais e palpáveis, inevitavelmente despertando empatia nos leitores. Marilyn tem uma história de vida muito interessante e, sendo mulher, é difícil não se identificar com ela, James também é real em todas as suas falhas e inseguranças. A Hannah dilacerou meu coração e eu só queria pegar aquela menininha no colo e abraça-la forte. Assim como Hannah, Nath é forte e tem um coração tão puro... E o que dizer de Lydia e sua gritante solidão? Tudo o que Nunca Contei é um livro que dói, dói ler, dói pensar nele e dói se identificar.
Como se já não fosse o suficiente, a autora ainda trouxe reflexões e debates de cunho social para o livro, sobre preconceito racial e de gênero, mostrando como era a vida de imigrantes chineses nos Estados Unidos e como era para as mulheres que não queriam ser donas de casa nos anos 40 e 50. Não quero revelar a forma como isso acontece, mas, a história consegue explicar os erros de James e Marilyn enquanto pais de uma forma muito tocante, ao mesmo tempo que não os exime de seus erros.
Não me recordo de já ter lido um livro que tratasse o preconceito racial contra chineses. Geralmente, o racismo é associado aos negros. Então, a autora mostrou uma perspectiva pouco conhecida pela maioria de nós, e com conhecimento de causa, afinal, Celeste é filha de chineses. Os debates sobre machismo e sexismo também são muito interessantes, a autora trás reflexões sobre o "lugar da mulher" e sobre como era (e continua sendo) difícil romper essas expectativas sociais a respeito de como uma mulher deve ser, o que deve fazer e quais devem ser suas prioridades na vida.
Acho que todas as pessoas já se sentiram pressionadas com as expectativas alheias, e esse também é um dos temas que essa história trabalha: expectativas, sejam elas sociais ou familiares. Tudo o que Nunca Contei tem aquele caso clássico dos pais que projetam no filho o que eles gostariam de ter sido. E ver como isso pode ser avassalador na vida de alguém é muito triste.
Então temos: investigação, drama familiar e psicológico e temáticas sociais em um livro de 300 páginas, com uma narrativa fluída e envolvente. Eu devorei esse livro, é simplesmente impossível parar de ler. A edição também está lindíssima, a capa é muito bonita e tem tudo a ver com a história e a diagramação está ótima. Já é uma das minha melhores leituras de 2020 e um dos meus favoritos da vida. Celeste Ng entrou no meu radar e vou ficar de olho em tudo o que ela escrever. Não é sempre que encontramos autores que conseguem unir mistério, drama, bom desenvolvimento de personagens, reflexões sociais, complexidade narrativa e fluidez em uma única obra.
Título Original: Everything I Never Told You ✦ Autora: Celeste Ng
Páginas: 304 ✦ Tradução: Julia Sobral Campos ✦ Editora: Intrínseca
