Depois de ler e amar Tudo o que Nunca Contei, de Celeste Ng, eu não pude deixar de me interessar por Pequenos Incêndios por Toda Parte, afinal, eu estava curiosa para saber se a autora tinha conseguido repetir a qualidade de seu primeiro livro. Logo no início dessa leitura, já pude notar que algumas características narrativas se repetem. Ambas as histórias começam em momentos importantes e depois vão flutuando no tempo para mostrar de que forma se chegou a esse ponto. Esse parece ser o estilo da autora, iniciar pelo clímax da história e depois recapitular para mostrar como se chegou ali.
Aqui, a história já começa com um incêndio na casa dos Richardson. Em seguida, a autora, de forma muito natural e fluida, nos apresenta os personagens e a forma de apresentá-los também se parece com seu primeiro romance. Os personagens vão sendo delineados aos poucos e o leitor vai conhecendo e entendendo cada um. Acho que a forma como a autora cria seus personagens é uma das coisas mais legais da escrita dela, ela não precisa dizer "esse personagem é assim", ela vai mostrando ao leitor como o personagem é, sem precisar defini-lo com adjetivos prontos.
E assim como em Tudo o que Nunca Contei, em Pequenos Incêndios por Toda Parte também temos uma família grande. O começo pode até parecer confuso, mas, como eu disse, a autora sabe muito bem definir e delinear seus personagens. Então, muito naturalmente, o leitor aprende a reconhecer e diferenciar cada um. Nessa obra, temos ainda uma segunda família, que se contrasta com a primeira. Enquanto que os Richardson são ricos e muito tradicionais, a família que se muda para a casa que os Richardson alugam é pobre e formada apenas por uma mãe solo e sua filha de 15 anos que é muito inteligente.
Como eu disse, a história começa com um incêndio na casa dos Richardson. Essa família é formada pelo Sr. e pela Sra. Richardson e seus quatro filhos: Izzy, Moody, Trip e Lexie, estudantes do nono, primeiro, segundo e terceiro ano, respectivamente. No momento do incêndio, apenas a Sra. Richardson estava em casa a quase todos atribuem a responsabilidade pelo incêndio à filha mais nova dos Richardson, a "ovelha negra da família". Vale mencionar que o que move essa história não é mistério em torno do incêndio. O que temos no livro é um drama familiar e social.
A partir daí, a narrativa se volta para o passado e mostra Mia e Pearl chegando em Shaker Heights, um lugar com valores tradicionais, famílias ricas e muitas regras, ou seja, um lugar em que elas se destacam, pois mãe e filha levam uma vida nômade, simples, colorida, livre e sem muitas regras. O choque cultural entre essas duas famílias é evidenciado e a forma como essas diferenças afetam a todos, mas principalmente a Sra. Richardson, é muito interessante de acompanhar.
Ao mostrar as relações que vão se constituindo entre os membros dessas duas famílias, Celeste Ng traz reflexões pertinentes sobre diversos temas, como a iniciação da vida sexual, racismo, diferenças de classe, a importância da arte e outros assuntos. Eu diria que esse livro não tem um tema ou plot central, não há nenhuma grande questão pra ser desenrolada ou esclarecida ao longo de todo o livro. O que temos são pequenos conflitos e questões que são inseridas durante a trama e talvez por isso a leitura não tenha sido tão boa pra mim. Eu senti falta de algo que movesse a história e me deixasse intrigada do início ao fim. De forma alguma dá pra dizer que o livro é ruim. É muito bom, na verdade, mas eu senti que faltou algo. Houve momentos em que eu fiquei super envolvida e interessada, mas também momentos que eu me senti tentada a pular algumas páginas até que o livro ficasse bom de novo. Então, posso dizer que essa história tem altos e baixos.
Já afirmei isso: um dos maiores méritos da autora é definir muito bem a personalidade de cada personagem. Isso fez com que cada um fosse ganhando vida ao longo da leitura, a ponto de eu sentir que conseguiria imaginar uma conversa com eles, imaginar o que eles diriam e como agiriam em determinadas situações. A narrativa em terceira pessoa permite que a autora flutue de um ponto de vista a outro sem perder a profundidade e a individualidade de cada personagem. Muitas vezes, narrativa em terceira pessoa significa uma narrativa mais impessoal e superficial, mas, definitivamente, não é o caso da narrativa da Celeste Ng. Ela consegue nos colocar na mente dos personagens sem que haja necessidade de inserir uma narrativa em primeira pessoa.
Tanto as flutuações nos diferentes pontos de vista como as flutuações no tempo são feitas de forma muito natural. Não há quebra da narrativa. Definitivamente, Celeste Ng é uma das autoras contemporâneas que mais me surpreendem pela qualidade da escrita. Como no primeiro livro da autora, aqui ela também insere alguns capítulos que servem para contextualizar o leitor em alguma questão, mas que não necessariamente possuem alguma importância para o desenvolvimento da história em si. Porém, em Tudo o que Nunca Contei eu gostei desses capítulos, porque senti que eles eram importantes, fosse para o desenvolvimento da história, fosse para o delineamento dos personagens. Já aqui eu não vi muita utilidade.
A história também acaba com muitas questões em aberto e, por mais que eu entenda que isso pode ter sido intencional, algumas me deixaram bastante frustrada. E minha última reclamação é que eu achei alguns acontecimentos extremamente inverossímeis, realmente não consegui acreditar que algumas das coisas que a autora estava descrevendo realmente pudessem acontecer na vida real. Apesar disso, quero reforçar que eu gostei do livro. Pra mim foi uma experiência boa, longe de ser ótima, mas também longe de ser horrível.
Apesar de os personagens serem todos muito imperfeitos e cheios de falhas, eu consegui sentir empatia por todos eles, até pela Sra. Richardson que chega a ser quase insuportável. E mesmo em seus erros, era fácil entendê-los. Também foi muito interessante acompanhar a força magnética de Mia e Pearl e como os membros da família Richardson se sentiam atraídos pela liberdade delas. Me fez sentir o quanto aqueles jovens estavam precisando de uma realidade mais leve.
Izzi, com certeza, é a Richardson mais intrigante e com uma trajetória mais coerente. A autora conseguiu amarrar todos os pontos para compor essa personagem. É incrível como essa autora elabora os laços familiares de tal forma que um membro da família influencia o outro e todos são um resultado de suas interações afetivas. Aliás, dentre os vários acontecimentos que marcam essa história, o evento que envolve a Lexie foi o que mais me comoveu. Não vou dizer qual foi, mas, quem leu, certamente sabe do que estou falando.
Pequenos Incêndios por Toda Parte me lembrou outro livro de nome parecido: Pequenas Grandes Mentiras. Ambas as histórias foram adaptadas para séries de TV e ambas protagonizadas por Reese Witherspoon. Estou curiosa para ver a série, porque acredito que essa história vai funcionar melhor no audiovisual.
Por fim, vale dizer que a Intrínseca caprichou na edição, que contém jacket com a capa da série e me arrisco dizer que ela é ainda mais bonita que a capa original.
Título Original: Little Fires Everywhere ✦ Autora: Celeste Ng
Páginas: 416 ✦ Tradução: Julia Sobral Campos ✦ Editora: Intrínseca
