Sammie é uma garota como qualquer outra. Está prestes a se formar no Ensino Médio, é uma das melhores alunas — se não a melhor — do colégio, adora estudar e conseguiu com muito mérito uma vaga na NYU. Quer dizer, ela seria perfeitamente normal se não tivesse sido diagnosticada um pouco tardiamente com uma doença neurodegenerativa terrível, a Niemann-Pick C (NP-C). Basicamente Sammie teria sua saúde física e mental danificadas com o passar do tempo, e um dos vários sintomas da doença é a perda de memória, o grande triunfo da garota. Foi aí que ela resolveu escrever um livro para manter todas as suas lembranças a salvo.

Se você quiser ler esse livro pensando que ele será melancólico o tempo todo, pode desistir agora mesmo. Sammie é um poço e esperança e para mim esse fato foi o que me fez gostar tanto do livro. Ela raramente reclama da sua condição e acredita piamente que conseguirá driblar os sintomas para ir morar em New York. Não acho que seja um processo de não-aceitação, Sammie sabe muito bem que sua vida nunca mais será a mesma, mas penso exatamente como ela: do que adianta ficar sofrendo? A melhor forma de lidar com a doença realmente é ir tocando a vida enquanto ainda for possível. 

Através das memórias de Sammie sabemos tudo o que acontece em sua vida, até mesmo quando aquele carinha de quem sempre teve interesse começa a notá-la, quando um velho amigo volta a ser presente em sua vida. Às vezes Sammie passava vários trechos do livro sem sentir nenhum sintoma da doença e, quando surgiam, acabavam me surpreendendo muito. Sinceramente, esses pontos em específico eram os únicos realmente tristes e tensos. Posso dizer que o que eu mais gostei n'O Livro de Memórias foi o fato de Lara Avery não ter feito a NP-C o que movesse a história; a doença de Sammy parecia um mero detalhe em sua rotina na maior parte do tempo.

E estou feliz por escrever sobre as coisas boas e as ruins. Feliz por não ter apagado nada. E todos os momentos entre as coisas boas? Se você só consegue lembrar suas aspirações, não terá ideia de como foi do ponto A para o ponto B.
É por isso que estou escrevendo para você, acho, e não tirando um monte de fotos. Uma foto não vai tão fundo. E o antes e o depois? E tudo que não coube no enquadramento?
E todas as coisas?
A vida não é só uma série de conquistas. (p. 234)

De todos os personagens secundários, de longe o que eu mais gostei foi o Cooper, amigo da Sam. Eles passaram vários anos sem se falar, mas quando voltaram, parecia que nada tinha acontecido, sabe? É isso o que eu mais prezo nas amizades. A família da garota também é super amável, apesar de se mostrarem super-protetores até em excesso — não tô tirando a razão deles, porque né, deve ser um tanto difícil, cansativo e preocupante lidar com esse tipo de doença, em que a pessoa vai definhando cada vez mais. 

Narrado em forma de diário, O Livro de Memórias não é exatamente sobre ter uma doença terminal e aceitar isso como a maior verdade da vida, mas é sobre nunca desistir dos seus sonhos, independente dos empecilhos que a vida coloca no caminho. Na maioria dos livros do gênero, o maior medo do personagem doente é morrer, mas com Sammie foi tudo diferente. Ela tinha medo de ter um branco durante o seu discurso de oradora, tinha medo de esquecer como resolver uma equação, tinha medo de ver o seu futuro ser destruído, mas não necessariamente medo da morte. Sam é uma das personagens mais fortes que li na vida. 

Apesar de o final ser totalmente previsível, até porque, convenhamos, não tinha como ter outro final, eu gostei muito. O Livro de Memórias é sensível e inteligente e fala muito sobre esperança. O "engraçado" é que são nessas horas que percebemos que a vida da gente é muito boa, que devemos reclamar menos e agradecer mais. O triste é precisar de uma história como a de Sammie para percebermos isso.
  

Título Original: The Memory Book

Autora: Lara Avery

Páginas: 392

Tradução: Flávia Souto Maior

Editora: Seguinte

Livro recebido em parceria com a editora