No dia 8 de agosto de 2021 completaram-se 56 anos da morte de Shirley Jackson, escritora norte-americana conhecida principalmente por suas obras de horror e mistério. Infelizmente, a autora não era muito conhecida até pouco tempo (ao menos no Brasil) e sua fama se deve especialmente à série A Maldição da Residência Hill, da Netflix, baseada em um de seus livros.

O Homem da Forca é o terceiro romance de Jackson publicado no Brasil, todos pelo Grupo Companhia das Letras. Ao tomar conhecimento desse lançamento, eu logo quis fazer essa leitura. Afinal, eu adorei as outras duas obras da autora e sabia que encontraria aqui a mesma áurea de mistério que encontrei nos lançamentos anteriores.

A primeira coisa que precisamos saber sobre as histórias da Shirley Jackson é que sempre há mais do que podemos ver. Sua escrita é densa e sombria e deixa no leitor uma tensão constante, esperando que algo ruim aconteça (e sempre acontece). As histórias da Jackson possuem aquela atmosfera agridoce que faz o leitor se sentir incomodado, apesar de ser difícil explicar o porquê.

O Homem da Forca me fez sentir esse incômodo desde as primeiras páginas, quando começamos a conhecer nossa protagonista, Natalie, e sua família. A dinâmica familiar é estranha, a relação de Natalie com os pais é estranha, o irmão de Natalie é estranho. Enfim, acho que deu pra entender que é tudo muito estranho, né?! E essa, com certeza, é uma característica das histórias dessa autora.

Também é fácil para o leitor perceber que Natalie possui uma mente sombria e perturbada. E como esse é um desses livros em que o leitor se encontra imerso na mente do personagem, a gente acaba dentro dessa confusão que é a mente de Natalie, onde realidade e fantasia (alucinação?) se misturam.

O ponto de partida dessa história é um evento organizado pela família de Natalie, a família Waite, para o pai dela, um escritor egocêntrico e prepotente. Durante esse evento, realizado pouco tempo antes de Natalie se mudar para a faculdade, uma coisa ruim acontece e isso vai fazer com que a mente de Natalie se torne ainda mais confusa. A garota, que já tinha a tendência de se perder em seus pensamentos e de imaginar acontecimentos e diálogos com vivacidade, fica ainda mais suspensa da realidade.

Confesso que o livro, apesar de ser muito bom, não conseguiu alcançar as minhas expectativas. Em A Assombração da Casa da Colina e Sempre Vivemos no Castelo, há o momento do clímax e eu senti falta disso em O Homem da Forca, que se mostrou mais linear e, ouso dizer, monótono. Dentre as várias histórias que transportam o leitor para dentro das mentes perturbadas das protagonistas, essa foi uma das que menos me conquistou, perdendo para, por exemplo, Eu Estou Pensando em Acabar Com Tudo, A Menina Submersa e Estamos Bem.

Porém, isso não abalou a minha admiração pela autora. Eu ainda acho a escrita dele genial e acho incrível a forma como ela consegue criar todo um clima de tensão através de sua escrita. Em se tratando de ambientação, Jackson está entre os melhores. A autora não precisa criar cenas gráficas ou assustadoras para deixar o leitor tenso ou assustado. Ela consegue fazer isso de um jeito muito sútil. Durante a minha leitura, em vários momentos eu tentei entender o que estava me deixando tão desconfortável e é difícil afirmar, pois é algo que fica implícito na escrita da autora. E isso é fantástico. Eu adoro leituras que me dão essa sensação e os livros da Jackson sempre me causam isso.

Uma coisa que eu gostei muito em O Homem da Forca é como é fácil se identificar com a Natalie, uma garota de 17 anos, prestes a ir para a faculdade e se sentindo insegura, solitária e confusa. Durante a leitura, eu destaquei vários pensamentos de Natalie com os quais pude me conectar, principalmente quando ela falava sobre se sentir solitária e ter dificuldade para se conectar com as pessoas.

Diferente dos lançamentos anteriores da autora, que saiam pelo selo Suma, O Homem da Forca veio pela Alfaguara. Como a maioria dos leitores que colecionam livros e adoram uma estante organizada, eu não fiquei muito feliz com essa mudança. Porém, a edição em si está boa em se tratando de diagramação. É um livro curto, com pouco mais de 200 páginas, mas a leitura não é tão rápida como pode parecer pelo tamanho. Afinal, se trata de uma imersão psicológica, o que sempre deixa a leitura mais densa. No geral, eu gostei dessa leitura, mas não tanto quanto gostaria e ainda prefiro os outros livros da autora. Acho que pra quem gosta do estilo narrativo de Jackson, O Homem da Forca é uma leitura interessante.

Título Original: Hangsaman ✦ Autora: Shirley Jackson

Páginas: 224 ✦ Tradução: Débora Landsberg ✦ Editora: Alfaguara

Livro recebido em parceria com a editora