Tive uma surpresa quando recebi o quadrinho Minha Coisa Favorita é Monstro. Primeiro que eu não imaginava que ele fosse tão grande — sério, acho que é maior que um caderno — e segundo porque eu fiquei realmente impressionada com a beleza dele. O livro é um diário de uma criança que ama monstros e história de terror, e tudo é feio em caneta esferográfica. O mais interessante é que a protagonista, Karen, se desenha com uma lobismoça, enquanto a família e a maioria das pessoas ao seu redor são representados como humanos.

Mas enfim, o que vocês precisam saber é que existem várias histórias dentro de Minha Coisa Favorita é Monstro. Além da vida e dos pensamentos mais íntimos da Karen, que ela desenha com todos os detalhes possíveis, conhecemos a história dos outros personagens através dos olhos dela. Em primeiro lugar, temos a família dela, composta pela mãe e pelo irmão mais velho — cujo passado é cheio de mistérios que a gente fica louco para descobrir. Depois, o livro passa a ter uma outra cara quando a vizinha de Karen, Anka, é encontrada morta em seu apartamento.

Os policiais que cuidaram do caso juraram de pés juntos que Anka se matou, já que não foi encontrado nenhum sinal de invasão, mas Karen tem certeza que sua amiga foi assassinada — não só porque não encontraram a arma do crime, mas porque a menina sabe de uma coisa que mais ninguém sabe. Além do mais, Anka era judia e, aparentemente, também tinha vários segredos. A partir daí, somos inseridos em mais uma história, que narra o passado de Anka e nos dá esperança de entender o que realmente aconteceu com ela. 

No meio desse bolo de informações, Emil Ferris ainda consegue inserir de forma magistral, sempre através dos olhos de Karen, a história de vários personagens secundários: a de um amigo que é negro e sofre bastante com todo o preconceito — que ainda é muito forte na atualidade e era ainda pior na época em que o quadrinho se passa; a de uma amiga muito próxima do colégio que não é que ela é de verdade; a de uma outra amiga que além de ser muito pobre, não é enxergada por mais ninguém além da própria Karen... E assim acompanhamos uma obra intrincada, mas extremamente bela. 

Eu fiquei encantada pela Karen. Apesar de se esconder sob a aparência de um monstro, ela é com certeza a personagem mais bondosa de Minha Coisa Favorita é Monstro. Apesar de ter apenas dez anos, é muito inteligente e curiosa, e carrega uma inocência que acaba machucando a gente. Por exemplo, em determinado momento da história sobre o passado de Anka, em que os horrores da Segunda Guerra Mundial são explanados — as capturas, os guetos e campos de concentração, todas as mortes —, é nítido que para a protagonista são informações abstratas, e isso mexe com a gente justamente porque sabemos que foi algo muito horrível. 

Minha Coisa Favorita é Monstro é, de um modo geral, emocionante demais. A única coisinha que me deixou muito bolada foi o final, que é tão aberto, confuso e frustrante que eu tive vontade de jogar o livro na parede. Eu já estava pensando em fazer um textão reclamando quando eu descobri que a obra original foi dividida em dois volumes — desculpem o chilique —, então eu mal posso esperar para dar continuidade às essas várias tramas que me trouxeram sensações inimagináveis.  Ah, resolvi não colocar fotos da obra nessa resenha para que você sejam surpreendidos também. ;)

Título Original: My Favorite Thing is Monster

Autora: Emil Ferris

Páginas: 416

Tradução: Érico Assis

Editora: Quadrinhos na Cia.

Livro recebido em parceria com a editora