Chimamanda Ngozi Adichie é provavelmente uma das minhas escritoras/pessoas preferidas dos últimos tempos. Ela escreve exatamente o que eu quero ler, fala exatamente o que eu quero ouvir. A cada livro, texto, conferência, seja o que for, ela se torna um exemplo para mim. Não sei se o fato de eu ter gostado tanto de Americanah tem a ver com o fato de eu gostar tanto da autora — apesar que, parando para pensar, a gente sempre tende a defender os feitos dos autores que gostamos — ou simplesmente porque tem uma história com vida própria.
Ifemelu é uma nigeriana bem sucedida que mora nos Estados Unidos, formada, com um blog de sucesso — em que fala sobre as dificuldades de ser uma imigrante num país como os Estados Unidos e várias outras experiências que passa no decorrer da sua estadia no país. É claro que sua vida nem sempre foi assim: bem no começo, ela trabalhava como babá para poder pagar suas despesas, a faculdade e em vários momentos podemos acompanhar o preconceito disfarçado de gentileza que sofria. Logo nas primeiras páginas, vemos a cultura americana por um olhar diferente, o que pode ser considerado meio sensacionalista por alguns leitores. Pessoalmente, eu li realidades.
Chega um momento em que Ifemelu resolve retornar à sua terra natal. Convenhamos que nem sempre a fama, dinheiro e sucesso são essenciais para a felicidade das pessoas, não é mesmo? Apesar de tudo, ela estava longe de sua família e de Obinze, seu amor de adolescência, e não suporta mais ficar longe deles. Mas a verdade é que voltar fez com que ela se sentisse uma estranha em seu próprio país, pois, sem querer, se apropriou da cultura americana para se adaptar ao país.
A única razão pela qual você diz que raça não é um problema é porque você gostaria que não fosse. Todos nós gostaríamos disso. Mas é uma mentira. Eu vim de um país onde raça não é um problema; e eu nunca me vi como uma negra, eu só me tornei negra quando vim para esse país.
É claro que Americanah é um soco no estômago dos leitores. Afinal, é muito fácil para uma pessoa branca, como eu, falar sobre o racismo. Difícil é falar sobre o racismo sentindo-o na pele. Difícil é não conseguir um emprego por causa da cor da sua pele, do seu tipo de cabelo. Difícil é falarem com você pausadamente e alto, por acharem que você não consegue entender o que falam. Falar é realmente muito fácil. Ifemelu, em todo o livro, é tratada como um ser inferior, como se não fosse merecedora das mesmas coisas que os brancos recebem. É claro que Chimamanda também fala sobre outros temas de peso, como xenofobia e desigualdade de gênero de uma forma muito crua e sincera, o que fez com que eu me apaixonasse ainda mais por ela.
Apesar de o livro ter mais de 500 páginas, seu tamanho não assusta. As páginas só não passam mais rápido que as horas. Os personagens são todos muito bem construídos, a ambientação, tudo parece muito real. Ah, não enxergamos o racismo só pelos olhos de Ifemelu, algumas partes são narradas por Obinze e mostram o que sofria na Inglaterra, só para confirmarmos o que já sabemos: nós, infelizmente, vivemos em uma sociedade racista. É triste, mas o racismo está impregnado em nós desde que nos entendemos por gente.
O que mais me surpreendeu, no final, é que a autora não perde o ritmo da narrativa de forma alguma. Ela nunca se torna chata. Mas não consigo negar que Americanah foi escrito para causar incômodo — e não, não digo isso de forma pejorativa. Eu sempre achei que, quando lemos algo que nos incomoda, é porque está cumprindo seu papel de mostrar a verdade. E é isso que Chimamanda Ngozi Adichie mostra em todas as suas obras, sem exceção.
Título Original: Americanah
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Páginas: 516
Tradução: Julia Romeu
Editora: Companhia das Letras
Livro recebido em parceria com a editora
