O Bazar dos Sonhos Ruins é o último livro de contos de Stephen King publicado no Brasil, e mais uma vez a Suma de Letras fez um trabalho excelente na edição. Mas o que chama mais a atenção do leitor é sem duvidas, a tradução. Sem filtro ou medo de ficar exageradamente carregado nos palavrões, os vinte contos só ganham com a decisão de não poupar o leitor. 

Outro ponto muito positivo é que, antes de começar cada um dos contos, King dá uma explicação da forma como a história a seguir foi produzida, de seu processo de criação. Inclusive não deixa a desejar na parte dos detalhes de como acabou tirando elementos da vida real e de seu próprio dia a dia, mesclando obviamente com o sobrenatural sempre presente em suas obras, para construir esse bazar. Seu intuito, logo no começo, é realmente vender sonhos ruins para o leitor, que uma hora ou outra, vão lhe atingir em cheio. 

Alguns desses contos já haviam sido publicados anteriormente, porém muitos são inéditos. King inclusive arrisca na poesia, deixando muitos leitores divididos sobre o assunto. É realmente uma tarefa difícil falar sobre um livro desses sem dar nenhum spoiler, afinal, contos são geralmente muito curtos e qualquer detalhe extra, já entrega o ouro. Milha 81 por exemplo, nos remete ao clássico do autor, Christine, tendo como protagonista um carro "perverso" — e pasmem, tem até referência a Harry Potter, quase nem gostei. Em Obituário inclusive é possível notar uma certa semelhança ao Death Note, obra japonesa de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, recentemente adaptado pela Netflix.

Sabe como é quando você está morrendo de medo? Claro que sabe. O medo é universal. Seu coração parece parar, sua boa fica seca, sua pele fica fria e um arrepio se espalha por todo o corpo. Em vez de trabalharem, as engrenagens na sua cabeça disparam. E quase solto um grito, sério. Penso: É a coisa que não quero ver.

No entanto, gostaria de comentar um pouco sobre Garotinho Malvado e Indisposta, que talvez sejam os contos que mais chamam atenção no livro. Em Garotinho Malvado passamos a acompanhar um presidiário que, prestes a cumprir sua pena de morte, resolve chamar seu advogado para uma última visita e relatar os motivos que o fizeram descarregar uma arma de fogo em um menino, aparentemente inocente. Sua tormenta é tão grande, que conforme o conto passa, acabamos imersos nessa história também. 

Já em Indisposta nós leitores sabemos o que vai acontecer, King deixa bem claro que estaremos um passo a frente do nosso narrador, e mesmo assim não deixamos de nos surpreender e entristecer com o rumo que a história toma. Acompanhamos Brad, um publicitário que está tendo problemas na empresa, e junto disso, sua esposa também está se recuperando de uma bronquite muito forte, a ponto de não sair mais da cama e nem conseguir fazer mais nenhuma das atividades corriqueiras. Os vizinhos do casal, que moram em um condomínio, estão começando a suspeitar de algo, no entanto Brad é um publicitário muito bom, capaz de vender qualquer ideia, por mais absurda e doida que pareça... E isso pode ser um problema. 

É importante ressaltar ainda de que os vinte contos não precisam ser lidos em ordem, e justamente por isso a gente acaba se apegando ao livro. No final das contas, ganhamos mais um companheiro para as horas de insônia. Ou seriam horas de pesadelo? De qualquer forma, é mais uma obra de Stephen King que vale a pena ter na estante, sendo fã ou não. E aí, ficou curioso para ler algum dos contos?

Título Original: The Bazaar of Bad Dreams

Autor: Stephen King

Páginas: 527

Tradução: Regiane Winarski

Editora: Suma de Letras

Livro recebido em parceria com a editora