
Terminei a leitura deste livro por volta de uma hora da manhã do dia 04/01/2019 — justamente dois antes de darem inicio ao julgamento de Harvey Weinstein, produtor de Hollywood que foi acusado por cerca de 80 mulheres por abuso e assédio sexual. Havia um sentimento de ódio em mim, um sentimento de incapacidade e de coragem ao mesmo tempo. Muitas vezes vemos mulheres acusando homens de assédio e/ou abuso e nos sentimos orgulhosas da coragem delas, mas nunca sabemos como foi para elas o caminho até a denuncia. Com Ela Disse essa perspectiva muda ao sabermos que para fazer a denúncia, as mulheres precisaram muito mais do que só coragem.
O livro é um relato das jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey sobre como foi o processo até a matéria do NYT, em outubro de 2017, com a denuncia dos assédios de Harvey Weinstein. Para quem ama jornalismo o livro é um prato cheio, com vários detalhes da investigação, assim como algumas "regras" de jornalismo que eu, particularmente, não conhecia. Ele não é um livro pesado, por mais que as histórias ali sejam pesadas. Mesmo nas partes que há relatos das vitimas da forma como foram contadas às jornalistas, ainda há uma certa leveza para não nos fazer passar mal com tanta barbaridade. É claro que essas histórias podem ser um gatilho para algumas leitoras e não estou falando em forma de meme: com certeza se alguém que estiver lendo já tiver passado por aquilo ou por algo semelhante irá ter reações negativas.
"Faz tempo que nós mulheres falamos sobre Harvey entre nós mesmas, e já é mais do que hora de ter essa conversa publicamente”. Naquela noite, tinham uma nova versão do artigo, com o nome de Ashley Judd.
É incrível a determinação delas em fazer essa matéria acontecer. Ao longo das entrevistas e buscas por novas testemunhas elas se depararam com muitas dificuldades, principalmente pelo fato de terem que fazer com a máxima discrição para que ele não descobrisse a respeito da matéria e acabasse botando tudo a perder com sua influencia e dinheiro. Por exemplo, o pior de tudo eram os vários acordos de confidencialidade feitos por Weinstein ao longo das décadas com várias mulheres que, em alguns casos, foram incentivadas por seus advogados a simplesmente aceitarem o acordo e a indenização e seguir com a vida. Por muitos anos simplesmente a menção do nome Harvey Weinstein desmotivava as mulheres com suas denuncias e poucas que tiveram coragem foram retaliadas por isso ao longo da vida (leiam um pouco da história de Rose McGowan).
O livro ainda cita uma investigação a respeito de Trump, que ocorreu antes, e de um juiz da Suprema Corte americana, que ocorreu após as denuncias do NYT e o movimento #MeToo. Essas outras duas investigações, apesar de não terem relação direta com a principal contada no livro, é um paralelo que podemos usar como comparativo entre repercussão e sobre como é importante as pessoas denunciarem o abuso o quanto antes. Outra questão importante que o livro acaba trazendo em sua conclusão é a respeito do #MeToo em si e como ele pode afetar as mulheres que não estão na vida "glamurosa" de Hollywood, onde seus abusadores são protegidos pelo anonimato.
Mas era o que todo mundo na sala, e mais pessoas fora dela, agora compreendiam: se a história não fosse contada, nada mudaria. Problemas que não são vistos não podem ser enfrentados. No nosso mundo jornalistico, a matéria era o fim, o resultado, o produto final.
Eu não poderia iniciar meu ano lendo um livro melhor e que me mostrasse tantas coisas que ignoro no meu dia a dia, mas que podem acontecer comigo a qualquer momento. Infelizmente nenhuma mulher está salva de assediadores e abusadores e é importante saber que temos sim o poder de denunciar esses predadores, pois quando isso é feito estamos também ajudando outras mulheres a não passarem por isso. Este livro é uma leitura necessária e atual.
Título Original: She Said ✦ Autoras: Jodi Kantor & Megan Twohey ✦ Páginas: 376 Tradução: Denise Bottmann, Isa Mara Lando, Julia Romeu e Débora Landsberg