Sarah Adams é uma autora que vem fazendo muito sucesso no TikTok com suas histórias levinhas e engraçadas. Como a minha meta para 2023 é ler o maior número possível de comédias românticas, não pensei duas vezes antes de solicitar Táticas do Amor para a Intrínseca. Apesar de unir dois recursos narrativos que amo demais, o namoro de mentira e o famoso friends to lovers, não tive uma experiência muito legal com esse livro.
Aqui, acompanhamos os personagens Bree Camden e Nathan Donelson, melhores amigos de longa data que obviamente são caídos um pelo outro mas têm medo de externalizar seus sentimentos. Os dois vivem em universos completamente distintos: ele é jogador profissional de futebol americano, o melhor quarterback de todos os tempos; ela, por sua vez, é uma professora de balé que mantem um estúdio para alunas quem sonham em ser bailarinas, mas não têm condições de arcar com os custos elevados das aulas em outros lugares.
Para mim, o primeiro ponto negativo do livro começa aí. A história real da Bree não é desenvolvida da forma que merece. Vemos o tempo inteiro grandes momentos do Nathan como jogador de futebol americano em ascensão, enquanto a protagonista é simplesmente resumida em "melhor amiga apaixonada", tendo seu lado profissional totalmente apagado. Por exemplo, sabemos desde o começo que ela sofreu um acidente que comprometeu sua carreira como bailarina profissional, mas como isso aconteceu de fato? Como ela lidou com isso? Ela abriu um estúdio de dança e pronto? Cadê mais detalhes sobre essa reviravolta, essa vida de professora, a conquista de um espaço digno para continuar mudando a vida dessas meninas, uma relação mais aprofundada com as alunas? Uma história com tanto potencial que foi totalmente jogada para escanteio!
Nesse sentido, já entra o segundo e maior ponto negativo de Táticas do Amor. Para mim, não existe romance, e olha que eles são obrigados a embarcar num relacionamento de mentira — que, spoiler, não tem química nenhuma, nadica de nada daquelas cenas de interação que faltam matar a gente do coração. Das 304 páginas, pelo menos 250 são uma lavação de roupa suja de "ai meu Deus, nós somos apenas amigos, nunca vai rolar nada mais que amizade" sendo que é bastante óbvio para todo mundo que eles gostam um do outro e só precisavam sentar e conversar um pouco! E mais, depois que finalmente se declaram, as coisas acontecem tão rápido que eu fiquei extremamente incrédula com tanta besteira.
Lógico que ambos têm medo de perder a amizade e isso acontece de verdade, mas precisava enrolar tanto? É uma coisa muito estranha, porque a Bree não tem coragem de se declarar e, tudo bem, eu entendo, mas também não deixa nenhuma outra mulher se aproximar do Nathan. Inclusive, fiquei deveras incomodada com essas cenas narradas sob a pespectiva dela, principalmente porque é muito escroto ler uma mulher se referir a outras mulheres por nomes pejorativos.
Acho que dos dois personagens, o melhor desenvolvido foi Nathan, simplesmente por ser o centro das atenções o tempo inteiro. Apesar de tudo ser sobre ele, houve um lado do protagonista que foi pessimamente trabalhado: em determinado ponto da história, Nathan desenvolve crises de pânico sem nenhum histórico de ansiedade ter sido retratado anteriormente. A sensação que tive foi que o tema foi introduzido só para acrescentar uma certa profundidade — que não existe em momento algum — na história. É como se a autora quisesse colocar o assunto em pauta só porque muitos livros atuais retratam transtornos psicológicos e ela não poderia ficar de fora. Acabou ficando extremamente forçado, sabem?
Além do mais, acho que a intenção da Sarah Adams era criar aquele personagem clássico das comédias românticas que a gente tanto ama: um cara lindo, alto, forte, musculoso, pose de machão, mas que na real é uma manteiguinha derretida. Nathan tem essas características sim, mas ao mesmo tempo tem umas coisas à la Travis Maddox de Belo Desastre, bem abusivo e machista. O cara simplesmente compra um prédio inteiro pra Bree não precisar pagar aluguel. Não é romântico e bonitinho gente, é extremamente controlador. Também não acho fofo falar que só vai transar com ela depois do casamento porque com ela é diferente. Mó discursinho de homem cis-hétero babaca, credo.
Resumindo, achei o livro ridicurlamente bobo. E tudo bem, eu de fato esperava uma coisa boba, mas não precisava ser estilo as fanfics que eu escrevia com 12 anos de idade, em que os personagens começavam a namorar em uma semana e na outra já estavam casando — e não vou nem entrar no mérito do casamento supresa, outra atitude controladora pra c*r*lho. Quando eu tinha essa idade, meus ideais de relacionamento perfeito eram totalmente deturpados e, do fundo do meu coração, não acho que podemos continuar normalizando certas atitudes dos homens, como as que eu citei anteriormente.
Acredito que o grande impasse desse livro é a imaturidade de ambos os protagonistas. Todas as atitudes e falas deles parecem de dois adolescentes de 16 anos e não de pessoas adultas, quase na casa dos 30! Justamente por isso preciso dizer que não compreendo muito bem toda essa fama em torno de Táticas do Amor. Entendo que todo mundo ama um clichezinho desses que deixam o coração quentinho, mas na minha concepção há abismos entre um clichê, que pode ser muito bem escrito — com bons protagonistas, personagens bem descritos como casal e também como pessoas individuais, aprofundamentos embasados além dos tropos e outras coisas nesse sentido —, e um livro com romance mal desenvolvido, personagens enfadonhos e enredo caricato.
Título Original: The Cheat Sheet ✦ Autora: Sarah Adams
Páginas: 304 ✦ Tradução: Sofia Soter ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora
