
Uma analista bancária com um coração de gelo, uma idosa à espera do marido que foi estacionar o carro, um casal de reformados à procura do seu próximo investimento, duas mulheres casadas prestes a serem mães, uma agente imobiliária e um homem vestido de coelho. O que é que estas pessoas têm em comum?
Na antevéspera de Ano Novo, um ladrão de bancos inexperiente acaba por acidentalmente fazer deste grupo de pessoas seus reféns, numa visita aberta a uma casa à venda, após falhar o assalto a um banco sem dinheiro.
Mas este livro não é sobre um crime. Tem dois polícias medianos e que não se entendem muito bem a tentar resolver o caso, mas não é um policial. Gente Ansiosa, de Fredrik Backman, é um livro focado nas personagens, na sua construção, nas suas histórias, no que as torna únicas e como foram parar ali. Não é sobre o caminho que fizeram para chegar àquela casa, é sobre a vida que os levou àquele momento, àquele dia. A estar ali com um grupo de desconhecidos, cada um mais tonto que o outro.
«(...) todas as manhãs, a responsabilidade enche-nos de um terror mortal. Não temos um plano: limitamo-nos a fazer o que podemos para chegar ao fim do dia, porque amanhã começa outro.
Às vezes dói, dói mesmo, nem que seja apenas por parecer que a pele que vestimos não é a nossa. Às vezes entramos em pânico porque é preciso pagar as contas e temos de ser adultos e não sabemos bem como, porque é com uma facilidade horrível e assustadora que se fracassa nisto de ser adulto.»
Como livro menos focado na história, demorou um pouco a conquistar-me, até porque achei que começou com um ritmo lento, onde o enredo não avançava muito - sendo que até achei a fórmula um pouco repetitiva ao início (capítulo normal, interrogação vaga, capítulo normal, interrogação vaga...). Eventualmente, porém, estas pessoas começaram a conquistar-me, aos poucos, com as suas histórias. Muito à semelhança do que aconteceu com A Man Called Ove, do mesmo autor, na verdade.
E tal como este livro, Gente Ansiosa é também uma história sobre o que nos torna humanos e sobre os laços que criamos com as pessoas; sobre como cada um de nós tem as suas vulnerabilidades, e como nem sempre as nossas escolhas nos definem enquanto pessoas.
«Alguns de nós nunca conseguem controlar o caos por completo, por isso as nossas vidas vão simplesmente andando, e o mundo vai girando pelo espaço, a milhões de quilómetros por hora, enquanto saltitamos na sua superfície como peúgas perdidas.»

Quem já leu? E num assunto pouco relacionado: alguém por aqui usa o StoryGraph? Resolvi deixar o Goodreads para entrar em experimentações e agora tenho uma conta solitária. Sigam-me por lá!