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Abr24
I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].
Manuel Pinto
(...) «Manhã cedo despertou a ilha, que fora o pico árido dum monte. Dos seus habitadores, uns tresmalharam pelos campos, conduzindo locomóveis e charruas de lesto rodar; outros foram para as oficinas; aqueles, ainda, montaram os dóceis hidroaviões, acenderam as caldeiras dos velozes steamers, e abalaram, mar fora, a continuar na faina que, dia a dia, lhes restituía o glorioso tesoiro da civilização submersa.
Pacientemente, haviam esvaziado alguns palácios do precioso recheio. Uma fábrica inteira tinha sido arrancada dos limos peça por peça, e erguia-se agora, excelsa sobre a terra, os seus motores, ao atroar os espaços, erguendo um canto altivo à audaz porfia dos homens. Laboratórios inteiros foram reconstituídos com seus maquinismos obedientes e intrincados, bem como os museus famosos, em que ressurgiam os mais delicados e soberanos lavores das eras antigas, salvos do imensurável túmulo.
Assim, naquele dia, a esquadrilha aérea e a esquadrilha naval tinham por missão procurar as ruínas duma das cidades mais faustosas que haviam existido no passado. O maremoto, que se seguira à catástrofe, tinha invadido a planície, e ela soçobrara debaixo das águas com seus bairros, parques e avenidas. As marés continuavam a levantar despojos, zimbórios de palácios, cofres antigos, vagões luxuosos e carros, onde os ossos chocalhavam como tentos de jogar. Os homens pesquisavam a grande metrópole, porfiando em reaver os seus sábios e artísticos tesouros. E era um exército inteiro que a ia acordar, entorpecida debaixo das algas e polipeiros.
Os hidroaviões voejaram, tornejaram, de olhos folheando as espelhentas águas. E, logo que divisaram o velho palácio encantado, que tinham em mira reconhecer, baixaram do voo sobre as ondas. Os barcos acudiram, e uma turma de homens equipou-se e desceu aos abismos.» ...
(continua)
publicado às 19:31