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Mar24
I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].
Manuel Pinto
(...) «Os homens eram assim entre eles, sem possibilidade de se compreenderem e de se congraçarem. A ordem vivia desta repulsão surda entre os dois campos; e nem revoltas, nem a ciência, nem os filósofos encontravam remédio para a crise das desinteligências. O mal parecia invulnerável como uma geba congénita.
A filantropia, a assistência pública, e as instituições do bem eram a panaceia com que os seres piedosos e opulentos procuravam narcotizar as mazelas sociais, à maneira de curandeiros perante as mazelas físicas. O traço de união estava no resultado, porque «a coisa em si» se para estes constituía mester sincero, para aqueles pouco mais era que prática aleatória. Onde não houvesse a especulação, topava-se com a utopia, e sempre o dolo dos fracos. Subitamente, os sábios descobriram segredos, que os teólogos até aquela data supunham apenas pertencerem a Deus. E em vez de os explorar para bem do género humano, procuraram torná-los instrumentos de domínio ao serviço do orgulho.
E eis como a soberba dos homens, munida destes meios arcangélicos, revolveu, desencadeando-os sobre a terra, a face do mundo e a essência das almas. A morte implantou-se na parte mais soberba do planeta. Mas, agora que a angústia chamou o orgulho às suas fronteiras, ao homem oferece-se uma preocupação mais alta e mais constante que guerrear o semelhante: iludir as potências da morte e a fatal efemeridade da matéria. Pela primeira vez, a valer, se apercebeu da sua sombra; não competia com o reflexo dum reflexo.
A dor irmanou-nos; a impotência pulverizou a vaidade do eu; lavrados pela angústia e pelo sentimento da nossa fragilidade, pois que o mal mirrou na raiz, talvez que no fundo da dúvida que nos atormenta dormite a esperança do milagre, o milagre do espírito, o «super-homem».
E com estas palavras a grande colmeia debandou, indo José e Rosa deitar-se na cama que as doces mães lhes prepararam.»
(continua)
publicado às 22:07