(...) «Meus filhos: Em tempos que não vão longe o mundo não era positivamente uma coisa deleitável. Sem dúvida, havia nele horas boas, amores, triunfos, revelações de beleza, mas tão cercado de precipícios e de angústias estava tudo que o espírito expendia para atingir essas coisas um esforço ao lado do qual elas se apresentavam fúteis e mesquinhas. Daí, o chamarem-lhes ilusões e volver-se em desdém o ardor havido em conquistá-las. O lado mau da vida era o mais amplo, aquele em que se tropeçava se o olho não estava alerta. A prudência mandava que cada um se supusesse a atravessar uma floresta onde estão os leões a dormitar. Um descuido, uma imprudência, as pálpebras duma fera que se abrem mau grado nosso, e é-se imolado. A ordem social parecia-se com esta floresta. Passar sem ser arranhado pelas feras, era um êxito de velhacaria.

Com as leis promulgadas e as tiranias imanentes, a moral em voga mais repleta de hipócritas e falsos conceitos que um cadáver de larvas, abandonado à face da terra, se os homens, antes de virem à luz, tivessem o sentimento de seus destinos e a faculdade de ser ou não ser, a Terra seria um lugar vazio e inerte. Mas, achando-se na vida, uma série de circunstâncias levava-os a assentar praça num dos dois campos: os que mandavam e os que eram mandados. Todas as ânsias se circunscreviam a este dilema: oprimir ou servir os opressores. Contra ele faliam as revoltas ou acabavam invertendo-se os papéis. Mais forte que elas era o egoísmo no coração do homem.» ...

                                                                                            (continua)