(...) «Os dois mundos, senhores e servos, mostravam-se bem delimitados por índole e por modos. Digladiavam-se forte e feio de parte a parte. Mas a solidariedade de cada um deles, no fundo, não era maior do que a das areias no areal. Ao primeiro passo do aflito, afastavam-se e deixavam-no afundir-se e perecer. O mundo dos senhores, à força de tiranias e convenções, era mais odioso e picaresco, e o mundo dos servos, com sua bestialidade, mais trágico e lastimável. A vaidade nuns e a ignorância noutros levavam-nos a cambalhotas, fluxos e refluxos que moveriam os deuses à piedade, se deuses existissem fora deles, além de meras expressões do seu medo e cegueira. Os patriarcas, esses terrícolas pacíficos e sábios das primeiras idades, tê-los-iam metido em jaulas como feras ou como energúmenos. Ah! o homem do século era um produto bem variado. Todavia celebrava-se-lhe a essência divina, e a ordem social reinante decantavam-na, decompunham-na em fórmulas como os seus teoremas de álgebra. Não obstante a guerra, a fome, a violência, a mentira, a contorção do instinto e dos sentimentos, invocavam a Providência, e a cada passo lhe rendiam perenes graças por tão bela cataplasma! A verdade -- esta verdade comezinha que é o segredo da nossa seriedade e não o problema que se pousa à nossa irreprimível ânsia de saber que prisão é a Terra e o que é o Cosmos -- não fazia caminho. Os sociólogos procuravam-na no complexo, quando ela estava na simplicidade; pretendiam caçá-la a óculo e bastaria buscá-la com as meninas dos olhos. A ciência crescia, alargava os horizontes; o progresso aqui era progresso. No domínio moral andava-se às arrecuas, cada vez para mais longe, cada vez para mais trevas.» ...

(continua)