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Mar24

I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].

Manuel Pinto

(..) «As duas famílias trabalhavam incansavelmente, sem sentir, todavia, desânimo e, falhos de polícia e de anjos custódios, a concórdia reinava entre eles. Horner, que era um velho sábio, havia aludido à elaboração dum código para governo das gerações. Meses porém e anos tinham rolado, sem pôr a primeira pedra daquele projectado edifício de sapiência. E, quando o espírito lhe volvia a tal plano, pensava: a melhor lei é a lei da vida; a nossa consciência elevou-se já muito para necessitar de regras; o homem é senhor de si.
E os filhos, em verdade, não eram degenerados, nem tinham aversão ao esforço. Espontaneamente, iam à escola, formavam-se, buscavam o trabalho, conduzidos pelo instinto de beleza e de saúde que há nas faculdades humanas à obra. E faziam-no tão voluntariamente como as andorinhas novas catam os insectos na primeira revoada pelo ar.
Técnicos, universitários, repartiam-se em funções várias, sem prejudicar o pé de igualdade em que assentava a comuna. E, sem necessidade de jurisprudência ali como por toda a parte, os homens eram fraternais uns para com os outros. Haviam-se lavado na grande tormenta e na indomável vaga que quase submergira a civilização; e as suas almas tornaram-se tão puras como os seus corpos saudáveis.
Ora aconteceu que num daqueles dias a velha mãe Contim encontrou abraçados José, o filho mais novo de Horner, e a sua neta Rosa. E, deixando-os ao seu enlevo, foi contar que Rosa era mulher porque amara.
À noite, as duas famílias reuniram-se para festejar a puberdade que acabava de declarar-se em seus dois filhos. E, antes de se separarem, Horner, sábio e afável, falou ao terno rebanho.» ...
                                                                      (continua)

publicado às 19:43