(...) «Meu pai nasceu industrial e explorava uma fábrica de canhões no Norte e grandes teares no Meio-Dia. Éramos dez irmãos e, graças à providência paterna, destinados a dominar. As nossas sinas, amigo Contim, foram diferentes! -- acrescentou Horner, sorrindo.
Contim, abanando a cabeça, confirmou:
-- Em verdade, meu pai era rendeiro dum nababo que herdara latifúndios na Ibéria. Éramos seis rapazes e duas raparigas e, desde meninos, regámos a terra com o suor do nosso rosto, como rezava a Bíblia, em última análise o grande Código da Idade que agora expirou.
-- Pois nós mandávamos, inundando o globo com os nossos produtos. Tínhamos a soldo um exército de homens, que é como quem diz, tínhamos em nossas mãos um feixe de destinos. Conhecemos o poder da riqueza; sentimos o regalo bárbaro de submeter e de esmagar; a fúria das greves alvoroçou-nos o sono com o incêndio das nossas fábricas. Havia miseráveis no mundo, sim, mas que nos importava, a nós que estávamos na boa da frescata e donos da cidadela doirada? As sedições, que aterrorizavam o espírito inquieto de meu pai, eram sempre inconsequentes. A terra, devido à fartura, até o arroto, duns, pululava de esfomeados que só pediam que os escravizassem. Os revoltosos, assim, eram dizimados como pelos pássaros as espigas mais altas no meio duma gândara de mato bravo.»...
(continua)
ANTOLOGIA _ A1 ( I - 114) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Revolução»
literatura, luta de classes, industrialização, desigualdade social
Texto originalmente publicado em Alcança quem não cansa
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