20
Jan24
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «Molharam-se os olhos de Floripes e o monarca tornou:
-- Ide, levai quanta tropa há em Portugal e Algarves, que não há-de ser preciso pedir-se auxílio a Inglaterra, e trazei-me o meu servidor. As alvíssaras são de tentar...
-- Não me encanta a riqueza.
-- Outras mercês vos serão dadas.
-- Outras... de vós, meu amo, as boas graças me bastam. Sou rico, louvores a Deus, e a minha fidalguia toca em Covadonga e no Duque de Fanhões.
-- Que vo-las dê então D. Floripes -- pronunciou el-rei num assomo de enfadamento perante tal prosápia.
-- Dela as aceitarei de bom grado.
-- Pois que vo-las dê!
-- Que lhe posso eu dar, nobre senhor? -- perguntou Floripes.
D. Raimundo, sem tornar resposta, envolveu-a num longo olhar que, para ser terno, só lhe faltava a languidez dos poetas que deram aqui há anos a alma ao Criador, com o verso de pé quebrado.
-- Meus moinhos que moem prata?
-- !
-- Três quintas, onde se criam nabos que põem o ramo no mercado, sitas mesmo à beira-mar?
-- O meu castelo da Lobata?
-- !
-- As minhas jóias sem par?
-- !
-- Que prémio desejais, senhor?
As damas, que o sentiam insatisfeito, ofereceram uma a uma as suas prendas:
-- Dou uma colcha de Sofala.
-- E eu, um corcel arreado.
-- Eu, um brilhante e uma opala.
-- Um punhal, eu, adamascado.
-- Um gomil de oiro para se lavar.
-- Toalhas de damasco e lhama para se limpar.
-- Pedi por boca, homem de Deus ou de Satanás...!
El-rei disse, notando a leve melancolia de que parecia ensombrar-se a figura de D. Raimundo:
-- Estareis vós enamorado?
-- Real senhor, assim quis minha sina.
-- De D. Floripes?
-- Sim, de D. Floripes.
-- Estava a dizer-me o dedo mindinho. Já vai nos trinta... Para quem está ela a guardar-se...?! Que fale, eu a autorizo...
Entre soluços, pálida, a donzela proferiu:
-- Se outro prémio vos não seduz, será vossa a minha mão. Mas fazei-me a mercê de escolher melhor...
D. Raimundo abanou a cabeça:
-- Nenhum outro me seduz.
Tudo assente, e já noivo de Floripes, partiu dali o cavaleiro à testa de poderosa milícia. E, volvidos muitos dias, regressou, trazendo após rija referta com os bandoleiros, segundo contaram testemunhas que não arredaram da corte, o nobre senhor de Montalvo. Vinha o mesmo, como sempre orgulhoso e fero, mais crescidos apenas os cabelos no cachaço e na venta, e as unhas com que se coçava.» ...
(continua)
"Verso de pé quebrado"
• [Literatura] O que peca cont
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verso
substantivo masculino
1. Rubrica: versificação.
subdivisão de um poema, ger. coincidindo com uma linha do mesmo, que obedece a padrões de métrica (pés) e de rima (variáveis no tempo e no espaço), ou prescinde deles (versos brancos e livres), caracterizando-se por possuir certa linha melódica ou efeitos sonoros, além de apresentar unidade de sentido.
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"
publicado às 20:27