Em sua Derivação de Wang-Wei, Fróes escreve: ‘(…) vez em quando encontro uma criatura da mata./ Rimos e conversamos um pouco./ Nem dá vontade de voltar pra casa’. Sua poesia está dentro desse riso.

Bruno Pernambuco

O momento em que o sentimento se desfaz, a reação depois da surpresa do encontro, quando o mundo toma de assalto, inteiramente, um instante, é a matéria da poesia de Leonardo Fróes. Em certos momentos o narrador desloca-se, dando lugar ao acontecimento como um evento que consome tudo, em outros mede uma observação ponderada, uma depuração das impressões que surgem do encontro, usando uma linguagem simples e imagens do cotidiano para figurar os efeitos sentidos. 

Poesia Reunida, seleção da obra do poeta lançada em 2021 pela Editora 34, evoca as funções clássicas de uma antologia: apresentar poemas de diferentes momentos , preencher lacunas presentes entre uma obra e outra através da pesquisa e recuperação de poemas, mostrar ecos entre as diferentes fases da obra do autor. Além disso, porém, é também uma publicação de poemas inéditos em livro, uma coleção atravessada pelo presente, que dirige os olhos a um momento histórico bem definido.

A seção A Pandemônia e Outros Poemas reúne poesias originalmente publicadas na revista Quatro Cinco Um, além de um poema resgatado, publicado originalmente na revista Almanak. As impressões do poeta, traduzidas no longo poema que dá título a seção, reforçam a sensação de que “alguma coisa está acontecendo”- sentimento que acompanha o autor diante da vista dos lugares cotidianos esvaziados. É um retrato traçado de um momento histórico peculiar, e com uma postura, nessa observação, que se faz também particular e destacada dentro da obra de Fróes.

Linha do Tempo

Nos poemas da primeira fase da obra de Fróes- antes da mudança para uma fazenda na região Petrópolis, no começo dos anos 70, que marcou a obra do autor- se vê um cuidado muito depurado da linguagem, às vezes aproximando-se de construções modernistas, às vezes inovando com esquemas de rimas de tradicionais, e utilizando-se, já nesse momento, muitas vezes analogias do mundo natural. Com a transição para o campo, entretanto, a sua poesia torna-se mais viva, tomada por essas imagens e que muitas vezes dá à descrição desse tipo de cena a centralidade do poema. Um exemplo disso pode ser encontrado na imagem radiante, e belíssima, descrita em Mulheres de Milho, poema do livro Anjo Tigrado. A observação de um milharal que cresce toma uma dimensão lírica, luminosa na abertura do poema, e o crescimento dos penachos traz a surpresa ao poeta, diante de uma transformação, em certa medida, impossível de ocorrer em um corpo humano.

Num poema como Mulheres de Milho certamente vê-se o efeito que o poeta descreveu em uma entrevista a Júlia de Carvalho Hansen, citada na introdução de Poesia Reunida: o de que “simplificando-se a vida, minha linguagem também se simplificou”. Em uma fase mais aclamada de sua carreira, com lançamentos como Sibilitz em 1981, e Argumentos Invisíveis, em 1995, essa simplicidade se alia a uma construção muito elaborada da imagem poética, e a uma experimentação que age em sutilezas, desmontando elementos do poema e criando um dinamismo e um estranhamento envolventes.

Algumas características se destacam aí. É constante, nessa fase da produção de Fróes, uma exploração da densidade dos poemas em prosa- recurso trabalhado pelo autor desde a fase inicial de sua poesia. A sobreposição de imagens, a manipulação das descrições, e a criação de  sintaxes que movem-se, e se adaptam conforme o necessário a cada situação, produzem relatos que confundem a fronteira entre poesia e narrativa. São fotogramas que, descrevendo situações que têm uma força universal, se colocam de forma específica e determinada, através das analogias que são utilizadas, das formas peculiares como são construídos.

Além disso, e essa é uma exploração que se vê especialmente nos poemas em verso do autor, essa fase da produção de Fróes é marcada por uma poesia decididamente bem humorada. A ironia é constantemente refeita nos poemas apresentados nessa fase, em muitas ocasiões se desenvolve uma voz do autor que desdiz elementos que foram apresentados anteriormente, ou que então sobrepõe imagens contraditórias, apresentando múltiplas faces de uma mesma história, de uma tal forma que o efeito do riso sempre se faz presente. Muitas vezes descrições contidas, registros que partem de imagens simples, ou de atos contidos, são construídas de tal forma que a expectativa do leitor é desfeita, surpreendida, através de elaborações que conscientemente jogam com isto que está assumido. 

No Pasto dos Cervos

Em sua Derivação de Wang-Wei, poema da obra Chinês com Sono, Fróes escreve: “Quando o rio corta meu caminho/ paro e contemplo calmamente a neblina que sobe./ De vez em quando encontro uma criatura da mata./ Rimos e conversamos um pouco./ Nem dá vontade de voltar pra casa”. Sua poesia está dentro desse riso. É uma construção, um ato que deve acontecer para que se separe a diferença de ordens entre observador e observado, e que usa o riso, o senso de humor como arma, como forma de postular essa união. O caminho para chegar à experiência- na mesma entrevista citada no prefácio de Poesia Reunida, Fróes descreve seu intuito de trazer à baila uma poesia “que antes de tudo é experiência, e não simples montagem de palavras”- passa por esse humor desestabilizante. Em nenhum momento  da obra de Fróes, talvez, isso se apresenta tão claramente como em História Oriental da Loucura, composição de três poemas presente em Argumentos Invisíveis: a apresentação das figuras traz uma aproximação, uma sátira dos comportamentos tidos como fora da norma, que serve, ao mesmo tempo, de retrato poético do autor, traduzindo o impacto e as sensações que estão na origem dessa poesia que pertence à experiência, e da necessidade de escrever.

Chinês com Sono, o último livro publicado por Fróes antes de Poesia Reunida, apresenta, de forma amplificada, outra faceta trabalhada ao longo de sua obra: a depuração da imagem, sua observação a partir de múltiplos ângulos. No volume essas perspectivas se torna um espaço privilegiado de exploração, e mesmo em descrições que se aproximam dos espaços urbanos, noturnos, boêmios, que povoam também a fase intermediária da vida do poeta, se vê um olhar voltado para o indivíduo que é mais tateante, que se desenvolve mais em cadeias longas de palavras, com uma outra cadência.

Ler a poesia de Leonardo Fróes é estar em um encontro possível com, como é descrito no poema Labial, “a frase que nos dirá respeito, a palavra certa para orientar nossos passos”. A riqueza de imagens, de temas abordados na obra de Fróes, e o refinamento das construções poéticas complexas a partir de uma linguagem simples, coloquial, permitem que possa sempre fazer a travessia rumo ao encontro, rumo à experiência, bem acompanhado.

Poesia Reunida (1968-2021)

Leonardo Fróes

Ed. 34

419 pp.

R$ 84