“Não há como dizer o que se sente”, assim começa Labial, poema do livro Chinês com Sono,
Bruno Pernambuco
“Há um cachorro que todo domingo passa pela minha casa e vem me visitar. É o cachorro de algum vizinho, mas cujo dono eu desconheço.
Sempre que eu saio de casa, quando o sol de domingo está nascendo, eu o vejo vindo na minha direção. Sem explicação, em algum momento, já há alguns anos, ele começou a atravessar a porteira da minha casa e fazer esse trajeto, a me cumprimentar e ficar junto comigo, antes de descer para a outra casa que fica na minha propriedade.
Eu acreditava que ele vinha pra cá sob convite do caseiro que morava comigo, que sempre o cumprimentava, dava coisas pra ele, e que provavelmente o conhecia, de nome, de donos, melhor do que eu. No entanto, esse meu amigo vinha doente há algum tempo, e há uns meses ele não resistiu e faleceu. Depois disso, porém, eu fiquei muito surpreso, pois o cachorro continua me visitando e me cumprimentando, sem que eu saiba de onde ele vem.”
“Não há como dizer o que se sente”, assim começa Labial, poema do livro Chinês com Sono, de Leonardo Fróes. A frase que no poema antecede um reencontro com a palavra, uma possibilidade, formada novamente, da elaboração, traduz uma verdade imediata e direta. A distância entre o acontecimento e a percepção intelectualizada acontece de tal forma que há algo, dentro de cada um, que sente o encontro antes da sensação controlada pelo sujeito e pelo ego, e que faz ver que, no entrelace das passagens, se desmonta a hierarquia suposta entre observador e observado
Essa desamarração, desconstrução de um esqueleto- ou então de um boneco de pano, posto em pé por um sistema de pesos- postado na ideia de um Eu irredutível, de um sujeito imutável a partir do qual os acontecimentos são julgados, é um laço continuamente desfeito na poesia de Fróes, e, em conversa com a Fina, o poeta aborda a apreciação das emoções geradas do encontro, e as formas de sua elaboração em construção poética.
Sempre Aberto no Meio
A poesia de Leonardo Fróes, com sua linguagem reflexiva e simples, e sua descrição precisa dos objetos naturais, que leva, em certos momentos,a descrições extremamente líricas, por vezes eleva sua concisão para descrever forças e acontecimentos que escapam aos sentidos imediatos, muitas vezes, na composição de uma cena, tomando os personagens retratados na observação do poema. Não se trata de uma descrição metafísica, propriamente, mas de uma observação de elementos que se manifestam de uma forma particular, nem sempre encerrada no mundo natural. Como descreve Fróes, “Há no encontro uma espécie de processo químico, mas de uma forma que antecede as definições das ciências duras. Está na vibração das coisas, na forma como se afetam uma a outra as personagens do encontro, mas, também, na ação de outros elementos que estão presentes na cena.”
Num poema intitulado Cruzamentos Caminhantes, ainda de Chinês com Sono, estes elementos aparecem assumidamente como uma ação do Destino. Num contraponto entre dois pares de andarilhos, ora a força posta entre os transeuntes que se encontram os leva a um abraço “como num quadro de Simoni Martini/ sem dizer palavra”- evocando através da pintura uma imagem algo irônica, mas de uma intensidade velada- ora a uma ignorância em relação ao outro.
Assim coloca-se um momento especialmente interessante, pois em Cruzamentos Caminhantes, através da simplicidade costumeira ao longo da obra do poeta, está colocada uma imagem do destino que é simultaneamente próxima e distante, em que sua ação se encerra no encontro que é narrado, mas ao mesmo tempo é necessária a distância de um observador que está fora da cena para descrever o movimento que está posto. O poema é um momento privilegiado na obra de Fróes com respeito a isso, em que a irresolução desse conflito enche de vida o texto e o anima.
Ângulos de Vista
No jogo da “Poesia da Experiência”- afinal a poesia é a capacidade de traduzir opostos em uma mesma definição, a linguagem que permite atestar ao mesmo tempo uma coisa e seu inverso- está presente uma figura negativa, daquilo que fica do observador, de quem realiza, a partir de sua identidade, o relato das impressões. Persiste, na expressão do Fróes, “Uma concretude instável”, cuja característica perceptível no produto final do poema é sua transformação diante dos encontros.
Há portanto um movimento que aí persiste, vivo e que se coloca como um dinamismo presente nos poemas cristalizados. A poesia também é um encontro, e também depende da presença favorável, dessa vontade do destino, para que ocorra aquilo que o autor chamou de “Poesia vivida”, aquela que o narrador está presente como uma parte da natureza, e da experiência, sem “uma supremacia da visão do poeta˜. Há uma certa condição temporal na poesia, pelo menos de sua conjunção com outros acontecimentos, em que o poeta deve estar ajudado pelas forças para produzir a poesia de sua experiência.
A permanência dessa concretude e das impressões apenas enriquece o trabalho da poesia como uma negação do indivíduo- afinal as tarefas impossíveis são aquelas que vale atravessar. Segundo essa definição, sob esse denominador necessário do observador a quem ocorrem as experiências poéticas, a poesia é um permanente esboço, ensaio, uma linguagem incapaz de concluir sua pretensão. Pode-se, a partir disso, imaginar o esforço de elaboração dessas sensações como um processo de construção e de autoria, em que uma figura autoral de quem escreve é construída continuamente na elaboração poética, na escolha dos termos, na invenção de sintaxes. Ao longo de mais de cinquenta anos de trabalho, porém, a poesia de Leonardo Fróes, embora assuma esses dispositivos da escrita e da criação literária, aponta para uma outra possibilidade: a da linguagem poética como uma forma de tornar-se invisível, a si mesmo e ao acontecimento. Uma tradução possível, talvez das técnicas do teatro no, dos atores que, em uma cena em que se dirigem à lua, se preocupam que o público perceba a lua, e não seu gesto. Este é um caminho desenvolvido e depurado na obra de Leonardo Fróes, e, seguindo a tarefa impossível (e no entanto quase óbvia, natural, de alguma forma) que seu autor se impôs, é uma trilha constantemente atravessada pelas manifestações dessa concretude que lhe serve de fundo, que em alguns momentos se impõe, como limite, como definição. Desfazer-se, e nesse esforço de se desmontar, também, dar luz a uma nova voz poética, é uma tarefa difícil, e uma tarefa que, na poesia contemporânea brasileira, poucas vezes se viu feita com tanta naturalidade, com tanta densidade de imagens e inovação formal e de vocabulário, quanto na lírica de Leonardo Fróes.