Enredados
natureza, comportamento humano, observação, interpretação, filosofia de vida
Curioso ler a múltipla funcionalidade das redes e teias. A rede que é começo para o pescador é fim para o peixe. A teia que segura as presas para a aranha serve também como material na arquitetura do beija-flor. Foto: Acervo da autora Sibélia Zanon O cachorro nos viu e começou a latir. Eu gosto – muito – do universo animal, mas não tenho muita intimidade física. Acabo interpretando latidos como aviso de fronteira. Isso acontece desde bem pequena, quando o filhote de collie da família latia alto ao me ver – de felicidade – e eu ficava meio arisca. Minha irmã é diferente. O cachorro nos viu naquela praia quase deserta, em algum lugar da Paraíba, começou a latir e ela foi ver o que ele queria. Chegando mais perto, vimos que ele levantava a pata para mostrar que estava presa numa rede de pesca. Não se tratava de delimitar fronteiras, mas de um pedido de socorro. A escuta é jeito de ler. Se a gente já tem dificuldade para interpretar os textos escritos, imagina os textos falados ou os textos latidos ou os ventados…? Redes e teias balançando no vento ou na água a gente pode ver por toda parte. Difícil é saber ler elas todas. Às vezes, a gente sente um cheiro bom de peixe, vai dar uma fuçada na rede e, quando vê, está enroscado. Outras vezes, a gente deita numa rede de embalar para um cochilo rápido e quando percebe dormiu tempo demais e perdeu qualquer coisa. Parece que começo de outono é tempo das aranhas capricharem nas construções. De vez em quando, me enredo em alguma teia do quintal. Sorte que sou presa grande demais. – Caiu na rede? – pergunta um amigo. – É, mas estou tentando escolher as redes onde caio. – Qualquer rede é boa pra cair, se eu caio, tu cais e traz os peixes. – Tá, mas quero emergir depois. Já vi muita gente se enfiar em rede e ficar amarrada. – Pois é menina, viver enrolado na rede é um perigo! Mas caçador, pescador e olha, poeta, também vive com a rede nas costas… Viver com a rede nas costas sem naufragar é sabedoria. Curioso ler a múltipla funcionalidade das redes e teias. A rede que é começo para o pescador é fim para o peixe. A teia que segura as presas para a aranha serve também como material na arquitetura do beija-flor. O beija-flor-grande-do-mato (Ramphodon naevius) trança folhas secas em uma folha maior pendente e costura tudo com teias de aranha. Para camuflar, ele usa liquens cinzentos na parte externa do ninho. Fica tudo bem amarrado. Só que o beija-flor também precisa se cuidar para não virar presa em teia grande. É só calcular errado o voo e ele deixa de ser arquiteto para se transformar em janta. Talvez seja inevitável ficar enrolado vez por outra. Mas afinar a leitura e a escuta pode ser um jeito de não precisar gritar socorro depois. Sibélia Zanon* é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta.
Texto originalmente publicado em Revista Fina