Aquilino-Fotobox rtp3 Luís Carvalho nascido 13-9-

(...) «Com os adultos tal preceito não é menos acaciano. Não digo que escrever com os termos corriqueiros da cozinheira não seja um processo; escrever, usando o autor de todos os recursos que possui a sua pena, seja em glossário, seja em ideias, é outro. Nunca vi nenhum crítico estrangeiro censurar um autor pelo vocabulário que emprega, se o emprega com propriedade. Se o emprega de molde que nem todo o bicho-careta meta o dente nos seus escritos, sem recorrer ao dicionário de quando em vez, está no seu pleníssimo direito. É forçoso que o romancista se recalque na sua opulência e se nivele com a cultura do leitor na sua tacanhez? Basta um minuto de bom-senso, ao menos pela Pentecoste, que é a descida do Espírito Santo sobre as almas, para julgar casos destes. O pior é que não há higiene mental nos nossos meios chamados cultos, nem quem a exerça. As ideias tolas correm pelos cantos como centopeias e infiltram-se por todos os interstícios. O regionalismo do caldo-verde, o uso do vocábulo raro são das tais.
Oiço dizer que o português é destituído de imaginação. Será verdade. Mas possui um dom inato de iludir e iludir-se que roça, mas não é, ao que tem de saloio, pelo maquiavelismo mental mais pitoresco e inacreditável.»