(...) «Outra acusação que vejo fulminar contra tal e tal escritor é de que usa termos raros. Termo raro é aquele que não emprega a peixeira nem o contínuo da repartição e determina, se não sintetiza, a matéria que se ignora ou em que a ignorância do leitor, tout court , tropeçou. É evidente que ninguém é obrigado a meter todo o dicionário na pinha. Mas seria absurdo que o leitor vulgar de Lineu -- engenheiro, arquitecto, comerciante, político, amanuense, professor de dança, entregues a actividades que têm um vocabulário próprio -- culpasse o autor, cuja lavra é a língua, de conhecer mais palavras do que ele, e aqui, além, o obriga a ir ao léxico, a tirar o significado da palavra pelo sentido ou simplesmente a fazer cruzes na boca. A leitura, de resto, pode ser e é uma forma de ensinança sem deixar de ser uma diversão. De modo que a palavra estranha ou ignorada é na leitura como o monumento que o turista encontra no seu caminho e visita se é curioso. Só na nossa terra, sem nenhuma espécie de alfândega mental, se arvorou o princípio de que se escreva apenas com termos que sejam acessíveis ao vulgo. O mesmo se recomenda quanto a livros para crianças, o que é discutível como sistema. Com efeito, não parece nada pedagógico que o autor considere a inteligência infantil apenas no estádio já percorrido ou segundo uma estratificação de faculdades.»...