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Fala do Homem Nascido
Poema Fala do Homem Nascido in ' Teatro do Mundo' (1958)
in Obra Completa de António Gedeão
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«... Quanto a linguagem, que se convencionou ser em seu particularismo local o plancton de que se nutre a escola regionalista, há a ponderar que o português, dadas as pequenas dimensões do território metropolitano, é único, uniforme, ageográfico. Àparte a corruptela prosódica, fala-se em Melgaço como em Vila Real de Santo António e os moliceiros da Aguda explicam-se mutatis mutandis como os senhores académicos no casarão do Abade Correia da Serra. Aqui, além, varia o termo significativo do mesmo objecto, que numas regiões se tornou obsoleto em relação ao Chiado ou desconhecido para os dicionaristas que em geral limitam a colheita à urbe e subúrbios.
Neste artigo, com regionalismo e sem ele, haveria muito que dizer. Assim, por exemplo, isso que certos críticos encartados denominam rebusca do vocábulo traduz tantas vezes a sua santíssima ignorância.
A vida agrícola, se partirmos do departamento mais elementar, dispõe de terminologia própria, insubstituível. Abstrair dela, lá porque a leitora de unhas cor de cereja ou o papo-seco das cidades a ignorem ou cheire a mãos suadas, seria tão absurdo como semear feijões de trepar e não lhes pôr estacas, banir num laboratório de química tais e tais nomes porque a pronúncia é arrevesada ou pertencem a corpos que são fétidos. Pretensos arcaísmos vivem no campo tão seivosamente como a beldroega e o alho-porro. Crer que entraram todos para a catacumba respeitável do Elucidário de Viterbo, para lá jazerem inertes ou embalsamados, revela ainda palmar ignorância do idioma.
Suponho que ao trabalhador, antes de mais nada, impende conhecer o abecedário do trabalho. Na oficina de carpinteiro, como de resto em todas as oficinas, cada coisa, processo, instrumento tem o seu nome particular. O aprendiz começa por conhecer o nome de tudo antes de exercer-se na sua técnica. Assim com a língua, o escritor começará por conhecer o vocabulário. Existe ainda uma categoria de zoilos, barras na Arte, na Literatura, na Ciência, esses que não deixam fazer o ninho atrás da orelha e afinal o que não querem é dar à palmatória a mão da sua inciência, que, se encontram termo menos cursivo na locução ou, vamos, que não usam ou desconhecem, soltam gritos destemperados de peru. Ora não há termo nenhum, desde que a substância ou qualidade que exprime seja própria e definida, que não irradie dentro do mosaico da frase, mais ou menos claramente, um lampejo da sua significação. Uma palavra é um ser vivo como um bicho. Faz-se sempre uma ideia de qualquer indivíduo que faça parte de família zoológica do nosso planeta. Uma zebra tira-se pelo burro, um javali pelo porco. De resto, um dos resultados práticos a auferir da leitura é ir enriquecendo cada um o seu instrumento de expressão com capitalizar palavras que são o formal das ideias e símbolo dos objectos. A leitura nem sempre se deve ter como um copo de água que se bebe de um trago ou uma fita cinemática que se abrange ao correr dos olhos. Exige esforço de compreensão. Mal iria ao escritor ou ao jornalista que a cada passo do seu trabalho tivesse de cogitar se os leitores perante tal ou tal vocábulo menos comum se encabritariam, ofuscado ou desentendido o seu pensamento ou imagem. A maioria dos termos que se encontram na lavra de um homem de letras honradinho, que não seja pedante nem nefelibata, salvo que se trate de moeda estrangeira ou de cunho novo, tiram-se pelo sentido. Se o pio leitor, esse a que nada escapa, sabe o quantum satis de latim para não ignorar os étimos mais gerais do idioma e o grego de algibeira, não terá dificuldades a vencer. Se não acerta com a significação dos termos por simples ilação, passa adiante. Uma parede não vem abaixo, se está bem construída, porque se lhe safe uma pedra. Um parágrafo, e muito menos uma página, não deixa de ser compreendida porque se encastoou nela um termo estrambótico.
Só em pseudo-sociedade letrada, afeita à ignávia mental, se suscitam tais objecções. Arvorado em lei o princípio do menos esforço, seria preciso condenar ao ostracismo Camilo, Herculano, não falando nos Cancioneiros, Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, etc., etc. Em França, para não ir mais longe, pôr de quarentena a Chanson de Roland, Rabelais, Montaigne, os Contes Drolatiques de Balzac, Carco, com textos salpicados de termos arcaicos, bárbaros ou estranhos. Todavia, livros deste género são considerados de leitura corrente, que seria desonroso para um homem de cultura normal apartar como intragáveis ou de laboriosa assimilação.»
[ pp. 78 a 81 (2ª edição, Livraria Bertrand) ]
Aquilino Ribeiro, "ABÓBORAS NO TELHADO (Polémica e Crítica)" (1955)