06

Nov23

Manuel Pinto

(...) «Pergunta-se em contrapartida: pode haver regionalismo com as características da lei, num país étnica e politicamente centralizado que se percorre num dia de ponta a ponta, falando uma língua única, desprovida de dialectos, quando mais co-dialectos? As capas de Miranda, a capucha, as uvas de enforcado, os safões e a açorda alentejana não são elementos cabondes para a sua representação constituir um subgénero. São vinhetas para o folclore, mas não temas para um romance. Na essência, Portugal é igual de Norte a Sul. Em rigor não há costumes, cozinhados, indumentária especial para esta ou aquela região. As variantes são mais insignificantes que as ondas num lago quando passa um palmípede. A única coisa diferente é a geografia. Há terra de monte e de planície; de várzea e de barbeito; de floresta e de savana. Orograficamente, o Minho é diferente do Ribatejo, como Trás-os-Montes o é do Algarve. Mas poderá essa diferenciação constituir substância bastante para dar lugar ao "homem" particular de região para região? Se existe esse homem, então, sim, poderá pressupor-se escola regionalista entre nós com seus praticantes. Ainda esta particularização tem os seus quês. Onde estamos de acordo é que a Mireille, por exemplo, é obra regionalista. Regionalista ainda é Fritz Reuters, que escreveu em platdeutsh. Com efeito, um dos requisitos sobre que assenta a existência da escola regionalista é a variação idiomática. Ora nós possuímos uma língua única, com uma só morfologia, com uma prosódia, de Norte a Sul. Ainda a língua, que brotou como uma enxertia do latim colonial no tronco ibérico, e como a cobra largou a sua primeira pele na Galiza, para revestir forma própria do Minho para cá, é, sob o ângulo da unidade, um testemunho de personalização. Mal seria que fosse uma manta de retalhos. O mirandês é uma corruptela episódica. De modo que sob este aspecto não há escritores regionalistas em Portugal.
O facto de escolher para teatro tal ou tal localidade de província, com tais ou tais representantes nados e baptizados fora de Lisboa, não pode conferir habilitação ao título. Seria absurdo que um escritor, alfacinha de gema, não pudesse armar o guinhol onde lhe aprouvesse sem continuar a ser universalmente português. Gil Vicente a cada passo fala das Beiras, dos seus ratinhos, dos seus abades, dos seus abegões, e nem por isso é escritor regionalista, nem qualquer se lembrou de o classificar de regionalista. Tanto Hemingway, como Gide, como Somerset Maugham versam temas cosmopolitas sem deixar de ser escritores nacionais. Quer dizer: a escola não se define pelo lugar geográfico.
Dir-me-ão que o regionalismo visa a outros objectivos, seja interpretar o tipo ou a índole de uma região. À parte as cambiantes, e é negócio de folclore, os labregos de Portugal são o mesmo presépio e com a mesma psique. Esfomeados, ignorantes, velhacos, trabalhados pelos instintos, tanto o são aqui como além. Quem faz o homem é o céu, é a Natureza, é o solo, são as leis e é a língua, que é como o molde dos pensamentos, e quem diz pensamentos diz racionalidade. Portanto, acabe-se de vez com a ideia incôngrua e sem fundamento de que há uma escola regionalista em Portugal. O que há é figurantes de carapuça ou de chapéu vareiro, de polainas de junco ou safões de pele. É pouco. Mudam-se nos bastidores. Abel Botelho nas Beiras, Camilo no Minho, no Alentejo Fialho e Brito Camacho são naipes do mesmo baralho literário. O específico é fruto da sua arte.»...

publicado às 17:38