A caixa, de aço, que nos leva de um lado a outro. A caixa, também de concreto, que chamamos de trabalho. As caixas, variadas, em que nos divertimos: bares, restaurantes, cinema, teatro…

Maria Paula Curto *

Essa semana eu fui fazer uma massagem – não, eu não desisti de cuidar de mim. E sim, eu sei que já falei todos os pensamentos tortos que me ocorrem quando eu estou lá, deitada na maca, mas eu preciso desse exercício de autocuidado. Pelo menos esse, vai, uma massagem relaxante. Eu mereço, certo? – em um spa bem pertinho de casa e num lugar muito bonito. Superarborizado, calmo, silencioso até (considerando que estamos em SP capital), com sofás, tapetes, almofadas, chá de camomila, e dois pequenos lagos com carpas. E uma pequena “cachoeira” que unia um lago ao outro. Na verdade, lago é modo de dizer, o que tínhamos eram dois tanques de concreto, medindo cerca de 4 X 4 m, com as carpas nadando de um lado para o outro. Bonito? Sim, à primeira vista, achei belo. Exatos cinco segundos depois, me bateu uma certa tristeza. Pobres carpas. Podendo ter um rio inteiro para nadarem livremente, estavam confinadas naqueles quadrados de cimento, quase esbarrando umas nas outras e condenadas ao mesmo visual e ao mesmo espaço, todo santo dia.

Será que as carpas, uma vez no lago , permaneceriam nele por toda a eternidade “carpal”? Foto: Acervo da Autora

Enquanto esperava para ser atendida, comecei a imaginar a vida daquelas carpas. Inclusive, pensei, será que eles trocam as carpas de um tanque para o outro? Pois não havia comunicação possível. Não daria para uma carpa escorregar pela minicachoeira e se deslocar para o outro tanque. Pensei também (com a minha mente matemática): Qual o critério para a separação das carpas entre os lagos? Será que eram de famílias diferentes? E se uma carpa do tanque 1. se apaixonasse por uma carpa do tanque; 2.e fosse separada do seu amor por tempo indeterminado numa dessas trocas? Qual seria sua reação? E se uma carpa odiasse seu novo espaço, seu novo lago? O que ela poderia fazer para voltar ao quadrado anterior? Ou será que as carpas, uma vez no lago 1, permaneceriam nele por toda a eternidade “carpal”? Obrigadas a conviver com aqueles outros peixes que, na largada, foram selecionados para habitar aquele mesmo e limitado quadrado? Sem qualquer possibilidade de troca? Triste sina essa das carpas, não? Presas pelo infinito por uma decisão estética. Como se a beleza chancelasse a tortura.

De repente, fiquei pensando se eu também não seria uma carpa. Confinada a caixas específicas. A caixa de concreto que costumamos chamar de casa. Ou lar. A caixa, de aço, que nos leva de um lado a outro. A caixa, também de concreto, que chamamos de trabalho. As caixas, variadas, em que nos divertimos: bares, restaurantes, cinema, teatro… E me dei conta de que, no fundo, vivo igual aquelas carpas, indo de uma caixa a outra, todos os dias. Ansiando por uma caixa maior, mais confortável, tendo o sonho da “caixa própria”, para garantir estabilidade e segurança nesse mundo encaixotado em que vivo. Com a ilusão de que tenho liberdade e de que consigo sair das caixas, por vontade própria, a qualquer momento. Sem perceber que por mais que me movimente, permaneço ligada a uma caixa original, que pode até aumentar de tamanho, mas que jamais me deixará ser livre de verdade.

O rio para o qual fui destinada a viver, tal qual aquelas carpas, está muito longe, muito além dessas quatro paredes. A diferença é que a carpa não consegue escapar. Ela depende de outro alguém m para chegar ao seu destino. E eu? Eu consigo. Sim, eu consigo. O que eu preciso é de coragem, aquela tal coragem que a vida exige da gente, para quebrar muros autoimpostos e exercer meu livre arbítrio, tornando-me o que eu realmente deveria ser – e não ter – desde o princípio. Enquanto essa coragem não vem, sigo nadando no meu tanque, conformada a um destino quadrado e insosso que a minha falta de ousadia me permitiu ter…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP