Água viva
autoconhecimento, amadurecimento, metáfora, natureza, esperança
As águas de fora e as de dentro se complementam. /Acervo da autora Dizem que ter esperança não é acreditar que as coisas darão certo, mas saber que elas têm sentido. Sibélia Zanon* Águas de outrora Eu me lembro do dia em que decidi sair das águas de dentro para respirar do lado de fora. Até então, viver no espaço apertado era confortável: a tranquilidade das escolhas limitadas. Mas, chegou o momento em que a posição fetal já não me cabia. Senti um esticar se agitando dentro de mim, um espreguiçamento esperançoso querendo saber até onde eu poderia chegar. Crescer é ser um peixe grande demais para o aquário. Ar Na primeira vez em que respirei, chorei baixinho. Minha mãe achou que a chegada da alma ao mundo era um sussurro. Eu achei que era uma incoerência. Abandonar um aquário confortável e chegar do lado de fora já sentindo falta de ar. Se eu soubesse toda a falta de ar que ainda presenciaria, teria chorado melhor. Águas de fora Meu reencontro com a água foi numa banheira vasta. Eu tinha desaprendido a flutuar e aquele ambiente era ameaçador. Depois, veio o mar. O medo da banheira não se repetiu nas ondas. A espuma me parecia mais lúdica do que perigosa. No lago, foram os girinos que me fascinaram. Eles teriam de aprender a respirar, feito sapos. Foi imensa a minha identificação. Finalmente fui introduzida à piscina, que não era um útero, não tinha espuma, nem girinos, nem qualquer coisa viva. O imenso tanque hostil, lotado de pequenos competidores, inflamou meus tímpanos. Eu, que já falava baixo, agora escutava baixo também e isso me salvou. Naquele tanque, me converti em ilha deserta. Água corrente Foi somente quando entrei no rio, que entendi o sentido das águas. Dizem que ter esperança não é acreditar que as coisas darão certo, mas saber que elas têm sentido. O snorkel me irmanava aos peixes e deixava eu ver o que ainda não tinha imaginado. No avesso do rio, ardia uma floresta de cores. O que acontecia por dentro das águas espelhava o lado de fora. Os dois mundos eram um só. Eu compartilhava as águas com peixes graúdos. O leito era raso e suas fronteiras eram paredes uterinas que nos continham. Eu deixava de ser ilha e passava a ser parte. Segui flutuando a favor da correnteza. Águas de dentro Saí do rio e o rio continuou em mim. Ele circula doce, às vezes turbulento. As águas de fora e as de dentro se complementam. Quero toda a água viva. *É jornalista, escritora e autora de Espiando pela Fresta
Texto originalmente publicado em Revista Fina