Parece inacreditável hoje, mas na infância participei de uma caça a passarinhos com estilingue. Fomos, eu e Silveirinha, no sítio de um tio no Litoral Norte.

Não recordo com exatidão todas as circunstâncias da infeliz aventura, mas lembro que caminhamos dentro da mata até bem longe de casa.

Após atingir as aves com as pedras que levava nos bolsos, Silveirinha espetava os pássaros na cerca de arame farpado. Una fileira de corpos de aves mortas.

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Fiquei vendo Silveirinha fazer aquilo e, confesso, o horror me tomou inteira. Decidi voltar sozinha para a sede do sítio, mas acabei perdida no caminho.

Distraída desde sempre, andei apenas uns poucos metros entre árvores que pareciam surgir pela primeira vez na minha frente. Voltei para perto dele envergonhada.

Mas aquele não era apenas o sítio do meu tio, onde tantas e tantas vezes brinquei com os primos? Não, aquela era a floresta misteriosa de As Brumas de Avalon.

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Sabia que os adultos da casa não sentiriam logo a minha ausência. De vez em quando eu me aventurava no rio ou desaparecia por algumas horas, catando licuri para encher o tonel que ficava na varanda.

Isso quando não estava escalando árvores, para sentir de perto o cheiro das folhas, arrancar as frutas no galho ou simplesmente ter, do alto, a visão do verde das coisas.

Minha mãe bem que tentava acompanhar tanto movimento. Para colocar um freio em minhas aventuras no sítio, fez com que toda a família reforçasse as lendas de que havia um jacaré dentro do rio.

O bicho ali representava o “homem do saco” das ruas de Salvador, sempre pronto a levar as crianças desobedientes para uma espécie de limbo. Mal sabia que aquela história teria em mim um efeito contrário.

Localizar o jacaré do rio passou a ser a minha obsessão nas férias — aumentaram ainda mais, os meus sumiços no sítio. Só não sei até hoje como me meti nessa caça a passarinhos com Silveirinha.

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Mas a verdade é que a coragem de matar as aves, eu simplesmente não possuía. Muito menos a habilidade necessária para armar a pedra no badogue e disparar para o alto.

Naquele dia, como se cumprisse um itinerário de tortura, engolindo a raiva e a vergonha, precisei esperardurante horas até que Silverinha ficasse cansado de acertar as aves com as pedras.

E tudo aquilo pesou bastante nas decisões que tenho tomado. Me refiro aos desafios aceitos só por orgulho. Aos amigos que pedem conselho, sempre falo sobre a queda que antecede o voo dos pássaros.

Eu os observo da varanda do apartamento onde moro, no décimo-segundo andar de um prédio. Gosto de tê-los perto por alguns segundos, como se não se incomodassem com a minha presença.

É com certo prazer que me aproximo o quanto posso e deixo que sintam que nada desejo, nem mesmo capturar sua beleza. Nada nessa vida se compara à confiança de uma ave em sua queda.

Um pássaro desconhece os princípios básicos da aerodinâmica. Ele apenas confia em seu instinto. Fico surpresa ao saber que cientistas ainda pesquisam de que modo os pássaros enfrentam as correntes de vento.

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Fico pasma com a perenidade de alguns mistérios. Como as aves dormem enquanto voam? Alemães estudaram uma espécie conhecida como Fragata de Galápagos e descobriram que ela plana quando adormece, usando apenas um dos hemisférios do cérebro.

E até sonha (até sonha!) durante cinco minutos.

Cientistas, sempre eles, divulgaram uma pesquisa em 2017 sobre a adaptação das asas das aves às correntes de ar. Pretendem usar esse conhecimento nos cada vez mais detestáveis e invasivos drones.

O mundo é um lugar horrível? Tá certo. Mas, ao mesmo tempo, ele é repleto de beleza. Na internet, por exemplo, alguém perguntou outro dia por que os pássaros não voam até a Lua em um site de buscas.

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