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(Continuação)

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«Concordámos que Camilo mais duma vez deu o flanco na nota que escreveu a propósito do pai de Eça. Do implicar comigo fez este um azabumbante [*] e apepinador leit-motiv ; das admirações beócias, de que o cultor da língua era alvo, uma chuchadeira inteligente e bem humorada. Foi pena que a diatribe tivesse ficado emparedada na papeleira do cônsul, guardada por tão invencível sentinela. Ali esteve enquanto Camilo foi deste mundo; lá continuou os anos que Eça lhe sobreviveu. Compreende-se que, não tendo recebido alvará de correr no primeiro transcurso, a não recebesse no segundo. Era uma questão de dignidade. Eça conhecia e praticava as regras da elegância moral.»

 

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«Lá a carta não destruiu. Estava contente com ela. Com arteiro resguardo a foi conservando entre os papéis, é de crer que entre os mais à vista, pois que foi dos primeiros publicados postumamente. Quem sabe se a não tinha assinalado com alguma indicação manuscrita, e fosse daqueles a que de quando em quando deitava o rabo do olho, curioso e rememorador. E é o caso de nos perguntarmos se há algo de condenável em tal atitude. Em nossa consciência respondemos que não. Os Goncourt adoptaram a mesma norma de procedimento para com os contemporâneos no seu Journal, a publicar vinte anos depois do falecimento do último dos irmãos, e, que nos conste, ninguém por isso os chamou ao pretório.»

 

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«Eça deixou ficar ali, à mão de semear, a carta singular, certo de que bateria a hora de raiar a público, a hora da sua revindicta. A derradeira palavra na querela com o velho Camilo seria deste modo sua. E foi.»

«Que esta atitude de reserva se coaduna com o carácter e temperamento de Eça ressalta do silêncio que guardou perante a morte de Camilo. Naquele momento se José Maria Eça de Queirós não fosse um produto requintado de artifício, desdém, cepticismo, tédio, hipocrisia social, a honesta hipocrisia de que fala Dantec, rancor primário, felinidade, teria escrito uma palavra, não generosa que a estatura do finado não se coaduna com sentimentos desta índole, mas de piedade pelo suicida de alma submersa em desespero, de justiça e de reconhecimento pelo genial cultor das letras. Não o fez e lamentamos esta falta de simpatia humana, quando era bem simples ao grande artista inclinar o balsão orgulhoso perante o gigante fulminado, extraordinário até no trespasse. Te-lo-íamos desculpado da sua pose farisáica: Eu nunca tive, é certo, a oportunidade deleitável de apreciar nem em copioso artigo, nem sequer em curta linha a obra de V. Exª. Como deleitável, se não exerceu essa oportunidade?»

«Precisamente, é deste pecado que o condenamos e é dele que a terra lhe é pesada. Não escreveu uma só linha àcerca do grande escritor, ele que esbanjou a blandícia pelos seus amigos, medíocres todos no talento; em contraposição deixou aquele bilhete, a coberto da irresponsabilidade dalém campa, pretensiosamente letal como os venenos que se depositavam à beira das múmias de qualidade contra os profanadores, os curiosos, e tudo o que desse sinal de vida das portas do sarcófago para dentro. Mas a ironia do mago não pôde com a reputação do morto.»

«Ah, se a carta vem a público, teríamos hoje a gozar os passes dum homérico desforço. Pouco antes, o demiurgo de S. Miguel de Seide provara a solidez do pulso com Alexandre da Conceição; com Calixto; com o Pe. José Maria Rodrigues. À semelhança de Anteu, o velho requintava nas suas qualidades de luta, cada vez mais sarcasta, mais dialecta, mais denodado, mais mordente, volteando a pena, consoante o ensejo, flame, varapau, estilete, vara de prestidigitador. Foi esse instrumento polimórfico que Eça temeu e desta vez foi-lhe bom conselheiro o dedo mendinho.»

«O jarretas de S. Miguel de Seide, percluso das faculdades físicas, mas não espirituais, ter-lhe-ia escaqueirado a vidraça insolente da ironia e do monóculo, oh, se teria! Mas a par desta página queirosiana, sublimada na malícia e na maldade, mais risonha que uma Graça esculpida em mármore branco, esse mármore de Paros que fala aos sentidos tão bem como a carne das raparigas ou o pão de farinha fina, a par dessa página póstuma primorosa, teríamos a página da desafronta, surpreendente de cólera e animada de sopro divino, superior, upa, upa, ao comentário à Procissão dos Moribundos, que já é apreciável em seu aticismo e vibratilidade.»

 Aquilino Ribeiro, «Camões, Camilo, Eça e Alguns Mais» (1949)

«Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.»
[Aquilino Ribeiro]

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azabumbante [*]
“azabumbante”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/azabumbante 

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https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693

Azabumbanteobsidiante, obcecante, atordoador. (p.12)

 

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