


(Continuação)
«Porque eu, falando de V. Ex.ª considero sempre a sua imaginação, a sua maneira de ver o mundo, o seu sentimento vivo ou confuso da realidade, o seu gosto, a sua arte de composição, a fraqueza ou a força do seu traço; e, pelo menos, admiro sem reserva em V. Ex.ª o ardente satírico, neto de Quevedo, que põe ao serviço da sua apaixonada misantropia o mais quente e o mais rico sarcasmo peninsular. E os seus amigos, esses, admiram apenas em V. Ex.ª secamente e pecamente o homem que em Portugal conhece mais termos do Dicionário!»

«Sempre, «a todo o talho de fouce», em artigo, em local, em anúncio de partida, em felicitação de dia de anos, V. Ex.ª é pelos seus discípulos e amigos louvaminhado e turibulado -- como o grande homem do Vocábulo, esteio forte da Prosódia, restaurador da Ordem gramatical, supremo arquitecto das frases arcaicas, acima de tudo castiço e imaculadamente purista! E ainda mais na intimidade, os amigos de V. Ex.ª o celebram como o homem que melhor sabe descompor o seu semelhante! E isto tão obstinadamente murmurado ou clamado, que esta geração mais nova, para quem já vou sendo um velho e V. Ex,ª quáse um fantasma, não tendo como eu e os do meu tempo rido e chorado sobre os seus livros de paixão e de ironia, o imaginam a V. Ex.ª um intolerável caturra, de capote de frade, debruçado sobre um sebento Léxicon, a respigar termos obsoletos para com eles apedrejar todos os seus conterrâneos!»
«A V. Ex.ª, crítico sagaz de si mesmo, melhor compete avaliar o que, neste vale de prosa e lágrimas, tem feito para merecer que os seus amigos, como os amigos de César no dia das Lupercais, teimem em lhes enterrar até aos ombros esta dupla e pesada coroa da vernaculidade e da descompistura.»

«A mim só me compete lamentar que a estas mofinas proporções tenha sido reduzido, pelo zelo crítico dos seus amigos, a larga individualidade que nos deu o Amor de Perdição. Mas ao mesmo tempo adquiro o direito de rogar a V. Ex.ª que, quando se queixar aos ventos e ao Chiado das pessoas que implicam consigo, como V. Ex.ª diz, ou que desdouram a sua glória, como eu traduzo, não se volte para mim e para os meus amigos -- mas olhe em torno de si para os seus admiradores, e para dentro de si mesmo, talvez.»
«A guerra de realistas e idealistas, causa primordial destas explicações, tornou-se já quáse tão desinteressante e sediça, meu prezado confrade, como a guerra dos clássicos e românticos, a das Duas Rosas, ou essoutra que, para vantagem única dos livreiros que editam Homero, dois povos semi-bárbaros tiveram a paciência de arrastar dez anos em torno duma vila da Ásia Menor, murada de adobe e tijolo. Renovar tão antiquada guerra nas gazetas é já um acto imperdoavelmente provinciano: mas mais provinciano ainda é estarmos nós aqui, com grãos de incenso nas mãos e pedras nas algibeiras, fazendo, através do grande mar, mútuas e lentas mesuras. V. Ex.ª de lá, de entre os seus sinceros arvoredos minhotos, ajanota as suas frases pelos figurinos de Filinto Elíseo, para me dizer gaguejando e com agri-doce generosidade: «O meu caro amigo tem muito talento, com excepção de escrever muita tolice.» E eu de cá, mais pérfido, porque habito as cidades, grito sem gaguejar e com polida efusão: «E o meu caro amigo tem ainda muito mais, sem excepção absolutamente nenhuma.»

«É infantil. Antes desperdiçássemos o nosso tempo, preguiçando patriarcalmente, neste doce calor de Junho, sob a figueira e a vinha... Mas quê! V. Ex.ª que estava brincando funebremente, a fazer no soalho, com tochas de fósforos, uma procissãozinha de moribundos, ergue-se de repente, corre para o público, mesmo sem tirar o babeiro, e acusa-me, entre lágrimas de furor, de estar sempre a implicar consigo! Que havia eu de fazer, eu inocente e justo? Corro também para o público, mesmo de jaquetão de trabalho, e brado profusamente com as mãos sobre o peito: «Nunca! É falso! Jamais impliquei com ele, e não lhe quero senão bem!»

«A culpa de toda esta inútil prosa é portanto toda sua; e para que ela se não prolongue mais, apresso-me, prezado confrade, a dizer-me de V. Ex.ª sincero e antigo admirador.
«Eça de Queiroz.»
«Esta carta foi escrita em seguida à leitura do Óbolo às crianças, no mês de Junho, como declara no texto -- neste doce calor de Junho -- e segundo a data de outra, dirigida a Luís de Magalhães, em que repisa por sinal uma das imagens:
«Não sei se V. leu nas Novidades uma prosa de Camilo, com frases muito janotas e arrebicadas todas pelo figurino de Filinto Elíseo, em que ele se queixava ferozmente de mim. Eu respondi-lhe numa epístola, destinada às Novidades, que (para ser modesto) não deixava de ter alguma pilhéria. Mas era muito longa, toda a lápis, tinha de ser copiada... e não tive paciência de a pôr em tinta limpa: de modo que guardei um discreto silêncio. Bristol 14 de Junho de 1887.»
(continua)