Céu nublado, meu amor. Quase dezembro no planeta Terra. Tempo mudou. A minha cidade inteira brilha. Creio que Deus apontou no mapa do mundo este lugar e disse assim: vai lá, azul, pôr luz nas coisas. Dobro a esquina e dou no mar. Logo ali, as ondas da Paciência.

Meio de semana e os meninos pegam jacaré, que é um modo de deslizar sobre as águas em pranchas improvisadas. Você vem correndo na areia, joga um pedaço de madeira perto e salta em pé. “Equilíbrio, nem máximo nem mínimo”, como naquele poema que gosto, de Orides Fontela.

Uns garotos sem camisa batem baba na quadra ao lado da praia, suados, famintos de bola. Olho para eles e vejo a dança que mora no drible. Quase escuto a música. Um samba duro, um afoxé, o azeviche. A cidade beira o mar e o sol, por trás das nuvens, é um pássaro urbano que pousa no teto dos automóveis.

Ainda lá, a Bahia vive, os tambores batendo, meu amor, coração no peito da América do Sul, e é Oxalá que dita o ritmo, as águas de Iemanjá, salgadas como lágrimas, batem nas pedras da memória. Erosão de séculos nas rochas deste Capricórnio singular. E entre suas fendas, o Tempo se demora.

O Tempo que nos olha, que nos molha, o tempo-mar, bicho inquieto que guarda por dentro um universo subterrâneo, sempre alheio ao que aqui se passa. Algas, estrelas e cavalos marinhos, cadeias de montanhas, planícies abissais, fossas vulcânicas. E os vestígios de algum naufrágio.

Do outro lado do Oceano, pulsa a força dos que atravessaram. O movimento dos barcos na antiga cidade atrás do porto. Este é um dia comum. Um dia comum. Aqui estou, meu amor, e abro os meus braços ao que vai chegar. Nesta cidade-casa, nesta cidade-asas, nesta cidade-azul.