Ela amava aquele lugar. Assim como amava essa cidade. Perguntava por que eu viajava tanto, se tinha nascido e sido criada no lugar mais bonito do mundo.
Maria Paula Curto*
Nesse fim de semana eu tive o privilégio de fazer um passeio de barco pela baía de Guanabara e pela orla de Copacabana. O dia estava primoroso. Céu de brigadeiro. Nem uma nuvenzinha sequer. Foi lindo demais. Eu sei, vocês vão me chamar de exagerada, de carioca metida, de arrogante, mas vamos combinar: minha cidade é sim maravilhosa. Pelo menos no quesito natureza. É 10, nota 10! (Ops, desculpe, foi o lado carnavalesco falando mais alto) Vamos esquecer por alguns instantes as questões sociais, culturais, econômicas, ok? Apenas por uns poucos momentos, só o tempo necessário desse texto. Pode ser? Essa cidade é de uma exuberância ímpar. Parece querer bater na nossa cara, dizendo: pode babar, vai, sou linda com força! A nossa resposta? A boca aberta e uma leve curvatura do pescoço numa reverência a essa Cleópatra tropical.

Mas o barco tem que seguir seu rumo. Para a próxima parada. A próxima praia. Com novas paisagens e novos mergulhos. Há mais pessoas no barco. Não estou sozinha. Nunca estive.Foto: Acervo da autora.
A primeira parada para mergulho foi na Praia Vermelha. Para quem não sabe, a Praia Vermelha é uma praia bem pequenininha que fica em frente à entrada do Pão de Açúcar e que, ao lado dela, há uma pista de caminhada que circunda o morro da Urca – o primeiro ponto de parada do bondinho. E, também para quem não sabe, foi justamente lá, nessa pista, que despejamos (nossa, que termo ruim) os restos mortais da minha mãe. (Nossa, termo horrível também) Ou, melhor dizendo, foi ali, naquele microparaíso, no meio da mata Atlântica, de frente para o mar, que eu e meu pai decidimos espalhar o pó para o qual a minha mãe retornou, nesse ciclo que chamamos de vida.
Ela amava aquele lugar. Assim como amava essa cidade. Perguntava por que eu viajava tanto, se tinha nascido e sido criada no lugar mais bonito do mundo. E ela poderia ter esse fala, sem ser acusada de bairrista, pois nasceu pra lá do Atlântico, no norte de Portugal. Mas nem cogitava voltar, seu coração batia em ritmo de samba com bossa nova.
Esse samba é só porque
Rio eu gosto de você

Foi ali, naquele microparaíso, no meio da mata Atlântica, de frente para o mar, que eu e meu pai decidimos espalhar o pó para o qual a minha mãe retornou, nesse ciclo que chamamos de vida. Foto: Acervo da Autora.
Não consigo deixar de lembrar dela ali. Nem por um segundo. Fico meio atordoada, como se tivesse levado um soco no nariz. Sinto que algo vai transbordar. Finjo que o olho coça por conta da maresia. Demoro para mergulhar, alegando que a água está gelada, mas o frio que eu sinto não é na pele. É na traqueia, que aperta como se aquele tanto de ar não fosse suficiente. E não é. Nada preenche esse buraco no estômago. Nem o pão delícia disponível tão afetuosamente numa travessa em cima da mesa de almoço improvisada.
Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
O mais paradoxal é que ao ver toda aquela boniteza, a primeira pessoa que eu quero chamar para mostrar a gaivota voando naquele exato momento e completando aquela aquarela é justamente ela. Eu sei que não adianta pegar o telefone e ligar. Ela não vai atender. No entanto, o celular continua vibrando. No meu colo. No meu útero. Não sei mais quem pariu quem. Só sei que dói. Dói na garganta, no meio das costelas, no baixo ventre. Quase uma contração.
Estou morrendo de saudade
Demoro um pouco, mas mergulho. Deixo aquele mar gelado me engolir. E misturar aquele pequeno rio salgado que escorria pela minha bochecha àquela imensidão azul esverdeada. Subo a cabeça puxando o ar que me falta. Decido boiar. Me entregar àquele líquido amniótico para tentar me nutrir. De memória.
Rio, teu mar, praia sem fim
Rio, você foi feito pra mim
Reluto em deixar a água. Não quero sair dessa praia. Me deixem aqui, por favor. Quero ficar. Quero muito ficar. Ali, perto dela. Ali, no mar mesmo, me sentindo leve, embalada, abraçada.
Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara
Mas o barco tem que seguir seu rumo. Para a próxima parada. A próxima praia. Com novas paisagens e novos mergulhos. Há mais pessoas no barco. Não estou sozinha. Nunca estive. E não estarei até o fim desse passeio…
Rio de sol, de céu, de mar
Água brilhando, olha a pista chegando
E vamos nós
Pousar

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP