Lílian Miranda 

Créditos da imagem: Khari Turner, Everything in the universe has a rhythm, everything dances, 2021

Em Algumas notas do dia a dia, tradução de partes do livro Ordinary notes de Christina Sharpe, a autora compõe uma narrativa que mescla sua vida pessoal e memórias da infância à teoria considerando sua formação como pesquisadora e escritora afro-americana, o que resulta em um empreendimento íntimo e declaradamente pessoal.

O texto conversa bastante com os trabalhos de Saidiya Hartman. Sharpe inicia a anotação de número 49 elogiando o trabalho de Hartman ao mencionar que a autora “expande os registros do que pode ser pensado, imaginado, declarado em relação à vida negra”.

Lendo alguns dos escritos de Hartman observei que ela dedica parte importante de seu trabalho à noção de beleza – que também me parece um dos pontos centrais do diálogo entre ela e Sharpe – mas principalmente à insurgência de uma beleza em espaço de violência, pobreza e negação de direitos. Em Vidas rebeldes, belos experimentos, Hartman comenta:

“O distrito, a quebrada, o gueto – é um ambiente urbano comum onde os pobres se reúnem, improvisam formas de vida, experimentam a liberdade e se recusam a existência subalterna predefinida para eles […] O quarteirão negro é um lugar despojado de beleza e extravagante na forma como exibe isso. […] No gueto, tudo está em falta, exceto a sensação. A experiência é abundante. A terrível beleza está além do que qualquer um poderia esperar assimilar, ordenar e explicar.

Na nota 51, Sharpe afirma que a beleza é um método.  Aproximando beleza e estética, a autora pergunta: de que é feita a beleza? E afirma estar atenta, “sempre que possível, a um tipo de estética que, sempre que possível, escapou da violência”. Essa observação de Sharpe fica bem ilustrada quando ela compartilha uma memória da infância que se inicia numa falsa acusação contra um jovem negro, amigo do irmão dela, que teria sido acusado de portar um rifle, que, no entanto, era apenas um de seus instrumentos de trabalho como jardineiro. A autora narra brevemente sobre como ela e outros jovens mobilizaram manifestações contra a polícia na época, acrescentando uma reflexão:

“Sabendo que todos os dias que eu saía de casa, muitas das pessoas que eu encontrava pela rua não me apreciavam e demonstravam isso, minha mãe me deu espaço para ser amada – para ser vulnerável, para ser querida. Foi com ela que aprendi e vi pela primeira  vez que a beleza é uma prática, que a beleza é um método, e que um receptáculo também é “uma pessoa em que alguma qualidade (graça, por exemplo) é vertida”

Sharpe vai defender essa posição de sua mãe como uma prática política, que alcança a mim – como pesquisadora negra, sendo criança nos anos 2000 e experimentando a rejeição pela cor da pele em escolas particulares de Salvador – e a outras histórias de mulheres que encontraram, quase que exclusivamente no âmbito familiar, um espaço de validação e valorização.

Acredito que é por isso que Hartman postula que a beleza não é luxo, e sim uma forma de criar possibilidade no espaço da clausura, tornando-se uma forma de radicalismo da subsistência, que acolhe desde o que é horrível em nós até que seja possível transformar o espaço ao redor: “É um desejo de adornar”. A beleza aqui já me parece um tanto próxima do conceito de fabulação crítica, termo que já discuti em textos anteriores.

Lendo Sharpe e Hartman, me lembrei ainda da relação que o filósofo Jacques Rancière estabelece entre estética e política. Na sua visão, ambas “são maneiras de organizar o sensível: de dar a entender, de dar a ver, de construir a visibilidade e a inteligibilidade dos acontecimentos”.

Poderíamos dizer que a fabulação crítica de Hartman é também um exercício político e estético calcado na investigação das práticas racistas com base em documentos que querem construir um visibilidade para sujeitos e fatos históricos silenciados ou lembrados apenas pela violência de que são vítimas?