Caroline Barbosa

Créditos da imagem: “Pátria mãe”, de Manuela Navas (2023)

Em A partilha do sensível, Jacques Ranciére distingue três grandes regimes de identificação da arte. Dentre eles, o filósofo afirma que o regime estético não é legislável, acopla o heterogêneo, “desobriga a arte de toda e qualquer regra específica, de toda hierarquia de temas e gêneros”.

Aqui me interessa pensar esse regime estético que “funda, a uma só vez, a autonomia da arte, a identidade de suas formas com as formas pelas quais a vida se forma a si mesma”. Para Rancière isso significa que a arte pode ser o lugar de falar sobre o que se quiser, como quiser, uma vez que o regime estético é democrático e abre espaço para a “glória de qualquer um”.  

Bernardine Evaristo, em Manifesto sobre nunca desistir, questiona o que chama de “a ética do policiamento da imaginação”. Na sua opinião, os escritores podem escrever sobre o que quiserem, da forma que quiserem, uma vez que a literatura se constrói na liberdade, na alteridade, na ausência de legislação, compartilhando assim, a perspectiva de Ranciére. No entanto, Evaristo não parece abonar completamente a suposição do filósofo, pois não perde de vista que um jogo se instaura ao redor de sua escrita e de sua fala como escritora negra. Sua perspectiva dialoga com a da escritora Djaimilia Pereira de Almeida, que anseia pelo momento em que autores negros poderão ser lidos a partir da temática que desejarem:

O mundo que eu gostaria de viver, e vejo cada vez mais escritores em todo mundo a dizer isso, é aquele em que cada um, seja qual for a sua cor, orientação sexual, identidade de género, escrevesse sobre o que lhe apetece. […] Um mundo assim, onde qualquer assunto é assunto para qualquer pessoa. E aí que a senha de admissão no espaço público não é a condição de que a pessoa fala e se pronuncia sobre questões raciais. Mas também não estamos nesse tempo.

Assim, seria interessante colocar à prova como o regime estético, tal como pensado por Rancière,  configura-se nas práticas artísticas do presente, considerando que a produção de autoria negra ainda precisa disputar politicamente sua “glória” ao mesmo tempo que luta para se libertar do policiamento imaginativo que cerceia suas produções, como nota Evaristo.