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AO SR. AQUILINO RIBEIRO

«Tão-pouco me atrevo a revistar e inventariar os encantos e as intenções de cada uma das onze peças literárias que constituem o seu livro.

Se me atrevesse a entrar nesse labirinto de beleza, só depois de demorada excursão conseguiria encontrar a saída. A sua obra não é das que necessitem de um cicerone e a mim se me afigura impertinente pedantismo apregoar como num leilão as jóias do seu estilo e aplicar-lhes a lupa duma enfatuada análise para quaisquer avaliações estimativas. O escritor que traz à literatura portuguesa esses quatro contos que são À Hora de Vésperas, A Pele do Bombo, Os Ladrões das Almas e O Remorso, fica-lhe desde esta hora devendo um romance regional onde formigue, reanimada pela vida do seu talento, toda a comparsaria rústica da Beira, pois é preciso ascender até ao Dostoievski dos Irmãos Karamazov para encontrar, na vidência genial que dos humildes possuía o espantoso eslavo, um termo de comparação para algumas das suas pinturas veementes de almas. Por menos que se afeiçoem às minhas predilecções de impenitente idealista os assuntos em que de preferência se exercitam as suas curiosidades inexoráveis de analista, e embora deplorando vê-lo desperdiçar um tesouro opulentíssimo de imagens com um velho tema como o da satiríase sacrílega do arcebispo de Córdova, o sortilégio da sua frase permanentemente me enleva. Páginas como a da descrição da Catedral, nesse citado conto; outras duma tão atilada filosofia, vertida numa prosa sonora em que se cuidam ouvir reminiscências auditivas do ritmo majestoso de Flaubert; e as desse elegante Os Senhores de Montalvo, cuja acção, tão magistralmente conduzida, lembra a do Barba-Azul, são verídicas obras-primas.»...

                                               (Continua)