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AO SR. AQUILINO RIBEIRO
«Mas são bem, na verdade, contos todos os seus contos? Não se melindrará a sua presunção, se eu lhe disser que como tais a alguns não considero? Os seus entrechos revelam-se tão frágeis que se quebram antes de chegarem ao fim. Pulverizam-se. Lembram-me repuxos de cristalina água, que no cume do jacto se desfazem numa húmida e irisada poeira. A sua acção, como o jorro de água, eleva-se impetuosa, mas logo, mal as iluminações dos seus pensamentos a toucaram e a matizaram, dilui-se num nevoeiro radiante. As suas acções são, por vezes, meros temas sinfónicos para desenvolvimento de motivos orquestrais. Assim, em A Tentação do Sátiro, a narrativa da noite com seus trilos de aves, os seus suspiros de rouxinóis, os seus sussurros maviosos de águas e as suas aragens balsâmicas de floresta e de jardim, a narrativa de D. Mafalda no leito me aparecem como pinturas literárias da mais esplêndida inspiração, quer na originalidade primorosa da composição sintáxica, como na vibração emocional que as electriza. Pelo arranjo e cadência do estilo, esse seu conto lembra o do Enforcado, do Eça. E já que este nome prestigioso do grande artista desceu a esta epístola, devo mais dizer-lhe que outro escritor ainda em Portugal como o Sr. Aquilino Ribeiro não conseguiu surpreender e aplicar os segredos da sua esbelta e fina arte e da sua adjectivação elegantíssima à sonora linguagem portuguesa. Com a sua imponderável e imanente lição de bom gosto, Paris parece adestrar as penas dos homens de letras por via duma sugestão imperiosa...»
(Continua)