Não há, no livro, uma guinada brusca, uma vez que tudo é permeado por vocábulos acres e plurais, com uma dosagem entre o leve e o denso que convida à curiosidade ao criar imagens únicas, não permitindo uma leitura desatenta.
Bianca dos Santos Lima
Acre, palavra que está no campo semântico de penetrante, mas também de mordaz. Que se assemelha a “agre” e seu azedo, mas também a “agraço” e seu vigor. Dentre seus acrósticos há “ecar”, remetendo ao falar em voz alta, além de fazer parte da raiz de “acréscimo”, levando a pensar em pluralidade.
Esta vontade de brincar com as palavras, explorando seus limites e caminhando sobre suas bordas, floresce na poesia de Hansen. Nela, a fórmula de perfazer as possibilidades sonoras do signo é uma constante, como é possível observar em Porta-retratos (2015), no perfil de poesias @poesiagora e em seu novo livro, A palavra acre.
Com versos livres e curtos, em sua maioria, A palavra acre leva o leitor a temas suaves como o amor, as pessoas e a própria escrita; e para outros mais espinhosos como a censura, as fake news e a morte de Marielle Franco. Não há, contudo, uma guinada brusca, uma vez que tudo é permeado por vocábulos acres e plurais, com uma dosagem entre o leve e o denso que convida à curiosidade ao criar imagens únicas, não permitindo uma leitura desatenta.
Também se vê novamente a maneira com que a forma poética de Hansen estrutura-se ou se desfaz de acordo com o som, criando pitorescos poemas visuais. Em Porta-retratos, os versos do poema “Ora” se quebram toda vez que o sufixo homônimo aparece, gerando os versos “Se eu for emb/ ora/ segura a onda, vê se não ch/ ora”, de modo a destacar a sonoridade; processo semelhante aparece em “vaZio” do novo livro, no qual as palavras ficam em torno de um grande Z que todas partilham em sua grafia, salientando o zumbido que o vazio pode conter.
Entretanto, não é possível dizer que A palavra acre é apenas uma continuação dos poemas anteriores de Hansen. A inovação vem da ampliação das características já citadas, que agora reúnem opostos pela sonoridade, mostrando semelhanças entre palavras antes destoantes. Em “Que escrever é fácil”, verdade e mentira se entrelaçam, deixando tênues os limites entre as duas; em “Poesia”, que fecha o livro, temos “panfleto livreto terceto/ esconjuro, livramento?” com os dois últimos vocábulos passando a assemelhar-se pela relação sonora que possuem com as palavras do verso anterior.
Aqueles que não se interessam por poemas mais visuais, mesmo com o lindo projeto gráfico de Henrique Lourenço nesta edição, ainda poderão se deliciar com algumas trovinhas, sonetos e redondilhas. Tal variedade de formas revelam não só a versatilidade da poeta, como também reafirmam o seu estilo: se o leitor de Hansen a identifica facilmente pelas características marcantes de seus poemas visuais, igualmente o fará nos metrificados, que também jogam com os sentidos e sons.
Na redondilha “No centenário de João Cabral” são adotados os tão característicos heptassílabos do autor pernambucano, referência-se o seu concretismo e o projeto poético de educação pela pedra sem, contudo, deixar de lado a construção do sentido pelo fonemas concomitantes entre as palavras. Do mesmo modo, há referências e homenagens a Drummond e Guimarães Rosa, em que a autora incorpora certas características destes, mas mantendo suas próprias, em uma perfeita emulação criativa. Em “Saussure, sussurro” versa sobre a fugacidade do signo “gato”, parecendo dialogar com Ana Martins Marques em “Não sei fazer poemas sobre gatos”; mas enquanto esta começa a descrever o gato substantivo, Hansen inicia pelo fonema [g].
Uma outra questão persistente em A palavra acre é o feminino, o que já se salienta pelo título. Como perspicazmente apontou Eliane Robert Moraes na apresentação do livro, “acre” é um nome masculino que, contudo, só aparece no livro acompanhando palavras femininas. De modo mais explícito, a temática aparece no poema “Dedicatória”, de versos mais longos, direcionado a todas as mulheres e apontando o silenciamento e a violência sofrida por elas, procurando também enaltecê-las. Escreve “Às poderosas, não porque gostosas, mas porque legítimas”. Se neste poema Hansen pede pela liberdade do feminino, em “Ele crê, ela cria” ela exalta o potencial e a mordacidade dessa liberdade:
Ele crê,
Ela cria
Ele crença,
Ela criança
Ele fere,
Ela onça
Ele imune,
Ela imensa
Hansen cria, é onça e imensa em sua escrita poética; mas é como se nós fossemos as crianças. Aquela criança exaltada pelos românticos, ingênua e mais propensa ao arrebatamento, pois a autora nos faz redescobrir as possibilidades dos signos e dos sons da língua portuguesa, como se estivéssemos em contato com eles pela primeira vez. Ela nos provoca no poema “O que pode a poesia”, questionando para que serve este gênero nestes tempos de ódio, mas acredito que a composição deste livro e sua dualidade já nos sugere uma resposta: ela serve para nos lembrar de lidar com leveza com os acontecimentos sem, contudo, nos deixarmos esquecer de sua aspereza; que a tranquilidade não é oposta ao pensamento ativo e crítico; ela é “- Peso alado que flutua”.
- Autor Marise Hansen
- Editora Patuá
- Ano da edição 2022 96 p