tem os pés mais cansados

do mundo, dissera-lhe o homem

enquanto seguiam os três com

as hortênsias. a criança sentada

sobre o dorso olhava o burro e

a vida que se abria em cada curva

como uma fotografia a sépia

de que nunca se regressa. muito

mais tarde, na mesma estrada,

viu o homem sozinho, sem o burro

nem as flores, e reconheceu em si

o imenso cansaço do mundo.

(in E Cabras, Galeria 111, 2008)

é sempre a mesma curva

cega, neste troço de pedra lascada,

não há como escapar

às primeiras chuvas

ao piso escorregadio dos olhos,

despiste, falésia mortal,

o coração não entende

sinais vermelhos.

(in Revista Telhados de Vidro nº 2, p. 39, Averno, Lisboa, Maio 2004)