07

Mar24

Maria do Rosário Pedreira

Recuso muitos convites porque mos fazem em cima da hora e já não consigo corresponder. Mas um dia destes esqueci por completo que tinha um compromisso (vá lá, o Outlook lembrou-me a tempo) porque, na verdade, a conversa sobre o assunto já tinha sido há quase um ano. Sobre a antecedência «excessiva», conheço, aliás, uma história deliciosa. Um escritor em princípio de carreira é convidado por uma biblioteca de província (passa-se em Espanha) para fazer uma leitura dos seus poemas daí a oito ou nove meses. Porém, no início do ano, o bibliotecário reforma-se, vem uma pessoa nova substituí-lo, essa pessoa entra de baixa por doença uns meses depois, e desaparece de certo modo o rasto de sessões agendadas no ano anterior. Mas, no dia aprazado, o escritor novato mete-se no carro, leva a velha pasta que herdou do pai, e aparece à hora indicada na biblioteca, de pasta na mão. Dirige-se ao balcão e diz que está ali para fazer a leitura. Então, a senhora sai de trás do balcão e leva-o até um corredor, dizendo-lhe: «É aqui.» Confuso em relação a qual das portas pertence à sala onde deve entrar, ele indaga: «Aqui onde?» É quando a funcionária abre um armário de parede, deixando à mostra o quadro de electricidade. «Não disse que vinha fazer a leitura?» Bem, isto nunca me aconteceu, ainda bem, mas um autor meu já fez uma viagem intercontinental para participar de um festival que, afinal, não tinha sido diivulgado nem tinha público... Ele passou uns dias de praia e turismo óptimos, ganhou o cachet sem ter de fazer nada e voltou à pátria. Histórias dignas de Vila-Matas.