08
Mar24
Maria do Rosário Pedreira
Apesar deste ambiente quase perfeito, ocasionalmente ouvia alusões a conflitos passados, situações que haviam sido, na opinião da maioria das pessoas, criadas pelas alunas. Uma vez, soube, uma aluna grávida e prestes a abandonar o colégio – os pais queriam obrigá-la a ter a criança e a viver fora do país – atirou-se do primeiro andar do edifício do BGU. A rapariga e o feto sobreviveram, mas uma professora que já lá não trabalhava denunciou à direção que Alan Cabrera passara muito tempo a discutir com a aluna e as suas colegas os pecados do aborto. A rapariga grávida saiu tão consternada de uma das aulas de teologia que pouco depois se atirou do primeiro andar. A professora que denunciou o caso também se queixou nas redes sociais das políticas institucionais do Delta e acusou-os de perpetuarem a violência contra as mulheres. Essa professora, obviamente, foi despedida, mas houve mais algumas professoras que sentiram a beligerância do discurso de Alan Cabrera nas suas salas de aula, apesar de não se atreverem a comentá-lo para além dos corredores do colégio. Em situações destas, pensava Clara, não se podia fazer nada: os pais das alunas apoiavam o tipo de educação que ali recebiam e, por essa razão, todos os anos pagavam enormes quantidades de dinheiro para a celebração de cerimónias e atividades da Opus Dei. «Este é o lugar ideal para trabalhar», disse-lhe Ángela no dia em que tomaram café juntas. «Desde que de vez em quando saibas fazer de surda, cega e muda.»
Monica Ojeda, Mandíbula, tradução de Rui Elias