06
Mar24
Maria do Rosário Pedreira
Ontem falei de adaptações cinematográficas e hoje volto à carga, pois um dos meus autores, pessoa sempre atenta ao panorama editorial em Portugal e lá fora, sugeriu-me que visse um filme que até certo ponto descreve bem o estado de coisas a que se chegou. Trata-se de uma longa metragem candidata a vários óscares (cinco, creio), baseada num livro de Percival Everett (já aqui falei deste autor que foi finalista do Man Booker Prize a propósito de um documentário sobre escrita criativa). Tem por título Ficção Americana e fala de um autor negro, médico e professor do Ensino Superior, admirado pela academia e pelos pares, mas cujos livros são cada vez menos lidos. Decide então escrever uma autêntica estopada politicamente correcta de ataque ao poder branco na América, que acaba por ser vendida em todo o mundo, incluindo para uma grande adaptação cinematográfica (a conversa com o futuro realizador é hilariante). Para isso contribui igualmente o facto de o agente inventar que se trata da obra de um criminoso que está preso e não poder, por isso, revelar a sua verdadeira identidade. Pelo meio, é-nos contada a história da família do escritor, cuja mãe começa a revelar os efeitos da Alzheimer e cujos irmãos viveram pelos vistos bastante afastados da estrela intelectual. Vale a pena ver, claro, nem que seja para percebermos o que o mundo dos livros está a atravessar.