É preciso fechar ciclos, diz o horóscopo para capricornianos. Há um padrão nas respostas, e é claro que você o nota. Então desiste de ler as previsões dos signos. Padrões saltam dos hexagramas no oráculo, explodem no céu das metáforas feito fogos de artifício. Mas ali eles estão à mostra. Estar na caixa de guardados da moça. No caderno manuscrito do amigo. No vídeo do ator famoso. Num bloco de notas anônimo. Estar na mira do crítico, que espinafra em público e pede perdão em sigilo. Ler os sinais confusos nos modos das pessoas. Mais confusos ainda para quem teve que aprender a ler os modos das pessoas. Fazer do balanço do ano uma gangorra. A roda gigante que perdeu o raio. Paralisada de medo no alto da roda gigante, olhar para baixo. Sem pânico, sem receio de que a cadeirinha se solte do raio. Aproveitar e ver as luzes lá embaixo, o movimento das crianças em torno das máquinas de caçar prêmios. Reconciliar-se formalmente com os erros do passado, as palavras medidas com fita métrica, medidas profiláticas para uma vida boa. Deitar a cabeça no travesseiro e saber que se pode seguir adiante sem o peso das irresponsabilidades amorosas. Tá feito, embora feio. No rádio, pula-se as músicas daquele tempo, a rosa, assim atômica, arrancada pelo talo. O foco obsessivo na literatura. A literatura como modo de respirar. A literatura como fuga. A literatura como grilhões que o prendem na masmorra com máscara de ferro. O império, o império dos sensíveis. E as modas, temperaturas do contemporâneo. Manda-se tudo às favas. O leitor crítico sério diria que são digressões. O leitor crítico, sem seriedade, classificaria como um ganho. É possível que no próximo ano a vida seja menos ordinária. Mas não é certo.