“Mulher com uma Jarra de Água” por Johannes Vermeer, ca. 1662–1665. Atualmente no Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque.

No ouvido percute ainda o refrão de Caetano: “Sou um homem comum/ qualquer um. / Mas ninguém é comum/ Eu sou ninguém”. A poética parece vir na contramão desse tempo, quando cada um quer se colocar sob o sol digital, brilhar ali, hipotecando a preço de nada o valor de sua vida privada.

No entanto, em muitos momentos a literatura adverte para a necessidade de resistir à avalanche de coisas, eventos, notícias de toda ordem, que nos dispersam na vertigem da velocidade do mundo midiático. Assistimos à furiosa transformação da eficiência em rapidez: tudo, ao mesmo tempo, agora — de preferência, por favor. Contanto que nos dê mais força, um bom ângulo de câmera, visibilidade. Parece que a coisa a evitar é a mediania, é ser pessoa comum.

Num outro sentido, Mandelstam chamou o XX, um século despótico; então, ou ele, o século, não acabou ou nós o prolongamos herdando dele o pior; há algo de despótico nas redes, na mídia — que faz passar do “você pode” ao “você precisa” estar linkado a tudo. Virgínia Wolf metaforizou isso na necessidade de guardar, em meio às mil coisas do dia a dia, um teto só seu; como condição de resguardar a integridade interior; sobretudo, fundamental à criação. Isso pode parecer ser ainda a borra do café do romantismo, mas é mais: é a condição de cada um, de ser uma comum, sem o despotismo das redes, sem mediação; até os bichos têm um nicho; já a pessoa comum mora em si mesmo — esse outro espaço de suas virtualidades próprias.

Em dado momento Ortega y Gasset fazia observação certeira: o heroísmo moderno consiste em ser si mesmo — quando tudo ao nosso redor leva, seja à dispersão, à profusão hipnótica dos vídeos do Tik Tok, seja ao totalitarismo das redes (carrego nas cores?), nos múltiplos prolongamentos dos influenciadores. Claro: há diferença entre ser a pessoa esvaziada, simples seguidora; e a pessoa livre, que reivindica para si o ser comum, sem ambição de refletores, sem medir a relevância das coisas pelo número de likes; quando o pensamento vira ladainha; e isso conforma: deixa a pessoa confortável por estar cheia de outros — ainda que vazia de si.

A pessoa comum, no melhor sentido, é mais inteira e melhor dimensionada que o herói; há no herói uma excrescência — que, por parecer sobre-humano é, de fato, menos humano. Na mitologia, Briareu tem cem braços; Argos, cem olhos; o Hulk, força descomunal. Daí a ironia, no Poema Em linha reta, de Fernando Pessoa: “Arre, estou farto de semideuses! / Onde é que há gente no mundo?”. A mitologia corrige a pretensão de exceder o humano: para que cem braços, quando dois bastam para bem prender alguém num abraço; cem olhos, quando dois, em dado momento, suspendem nosso destino. A grandeza de ser pessoa comum — a que, com algum cuidado e equilíbrio, com a feliz administração de seus meios, tem em si o bastante para ser feliz, cumprir assim o esplendor de sua sina. A aceitação dos limites humanos é justamente o que faz sua grandeza. Seu mérito: o que de grande fizer com parcos meios. É engraçado o malabarismo dos transformers; das supermáquinas — mas, é bem mais fantástica essa façanha de que dá conta o poema de Alberto Costa e Silva: “Quando nos criaram/ as mãos do deus estavam cansadas/. Por isso somos frágeis/ e mortais. / E amamos. / Para resgatar/ o que no deus/ foi sonho”.

O carroceiro apanhando papel, sendo todo cuidados e carinhos com a cachorrinha que o acompanha; o pesquisador, hora e horas, paciente, em seu laboratório; alguém ansioso esperando resposta de um e-mail: perfis comuns, talvez — mas que uma certa luz de ouro projeta em silhueta enorme: um amor os imanta. Já ninguém é comum, como bem diz a música de Caetano.