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Jul25
Maria do Rosário Pedreira
Estava a rever umas provas e precisava de cortar um nadinha de texto para ganhar uma linha, que era precisa um pouco mais abaixo por causa de um travessão de início de diálogo que, por lapso, não tinha saltado para o parágrafo seguinte. E foi então que reparei numa coisa curiosa: a frase dizia que uma mulher estava «desesperada por não saber o paradeiro do filho». Porém, se estivesse «desesperada por saber o paradeiro do filho», na verdade, também pouco mudava (podemos estar desesperados por encontrar alguém). Tirei o «não» e ganhei a linha de que precisava, mas... Como é que uma frase com «não» (negativa) e uma frase sem «não» (afirmativa) podem querer dizer a mesma coisa? Um amigo chamou-me a atenção para o facto de que há mais casos: o verbo «sancionar» também é paradoxal. Implica sanção, castigo, e ao mesmo tempo aprovação. Podem aplicar-se sanções a certas medidas (no sentido de as chumbar); e podem sancionar-se medidas (confirmá-las, ratificá-las). Que esquisito, não é? A língua portuguesa é tramada.