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Nov22

Maria do Rosário Pedreira

Lembro-me de que alguns jovens escritores que publiquei pela primeira vez no início deste século convidaram para o lançamento dos seus livros de estreia professores que, segundo eles, tinham sido essenciais na sua formação. Alguns destes professores haviam sido docentes do ensino primário, estavam já distantes no tempo, mas, pela sua dedicação, nunca tinham sido esquecidos pelos seus ex-alunos. Sinto que isso acontece cada vez menos, não sei se por falta de gratidão dos escritores, se de facto pela falta de qualidade de muitos professores, alguns dos quais, sei-o por experiência própria, nem sequer gostam de ler. Encontrei, porém, no mural do Facebook de um poeta-professor, António Carlos Cortez, uma carta belíssima de Albert Camus que, depois de ser galardoado com o Nobel da Literatura, não esqueceu o mestre que acolheu aquele menino pobre que ele era e constituiu para ele um exemplo de peso. Acho que vale muito a pena lê-la e, por isso, transcrevo-a aqui no blogue.

Caro Monsieur Germain:

Deixei extinguir-se um pouco o ruído que me rodeou todos estes dias antes de vir falar-lhe com todo o coração. Acabam de me conceder uma honra excessiva, que não procurei nem solicitei. Mas quando me inteirei da notícia, o meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para o senhor. Sem si, sem a mão afectuosa que estendeu ao garoto pobre que eu era, sem os seus ensinamentos e exemplo, nada de tudo isto teria acontecido. Não imagino um mundo com essa espécie de honra. No entanto, constitui uma oportunidade para lhe dizer o que foi, e ainda é para mim, assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que sempre empregava ainda se encontram vivos num dos seus pequenos alunos que, apesar da idade, não deixou de ser o seu grato estudante. Abraço-o com todas as minhas forças.

Albert Camus