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Tema: Um livro só com uma palavra no título

Avisos de Conteúdo: Morte

A mancha imensa de um azul translúcido tem tanto de terapêutico, como de emoção em alvoroço, acompanhando as oscilações que habitam o lado esquerdo do nosso peito. E é esta inquietação, tão longe de ser monótona, que encontro nas palavras de Afonso Cruz, porque nos desafiam a partir, a navegar pelo desconhecido e a aceitar a beleza singular do improvável. Assim, para corresponder ao tema de setembro do Uma Dúzia de Livros, apanhei boleia do terceiro volume da coleção Enciclopédia da Estória Universal.

«A mãe era o sal do mundo, era setenta vezes sete»

Mar, com entradas por ordem alfabética, convida-nos a descobrir e a sentir a vida de diferentes protagonistas, ao mesmo tempo que desperta a necessidade de olharmos para dentro: não só com o intuito de nos reconhecermos, mas também com o propósito de nos colocarmos do outro lado, exercitando a empatia e a identificação de realidades distintas da nossa. Por consequência, sentimo-nos a refletir acerca da linha que divide a ficção do que é real, porque esse limite nunca é claro, o que torna a viagem muito mais estimulante.

«As palavras das cartas são o outro lado do vento»

Existe, no interior deste exemplar, uma simbiose perfeita e inspiradora entre parábolas, aforismos, contos, pensamentos, recordações e vivências. Além disso, cada estória é aprofundada por um grafismo único, que apela à nossa imaginação e complementa a mensagem nas entrelinhas. Com uma escrita poética, a relação com o mar pode não ser sempre evidente, porém, marca cada partilha, sendo um cenário transversal a todas.

«Dizem que cada homem é uma ilha, mas, 

para ser preciso, cada homem é um náufrago»

Afonso Cruz, com uma inigualável criatividade narrativa, transporta-nos para vários mundos. E é impressionante como as suas palavras causam tanto impacto, mesmo quando parte de um parecer mais simples ou subtil. E, em simultâneo, por criar sequências tão imagéticas, desperta todos os nossos sentidos.

«Está enganado, há montanhas muito maiores. 

O infortúnio é muito mais esmagador»

Mar é «uma metáfora do tempo vivido» e entrelaça-nos a temas tão centrais como a morte, o luto, as crenças, os sonhos, a religiosidade e as relações inter e intrapessoais. Fomentando, também, a fantasia das cartas de amor em garrafas, é um livro que encanta, que nos lê a alma e que reforça os fios invisíveis que nos interligam e encaminham na mesma direção - ou por rotas opostas -, para que, depois, cada um alinhe o seu voo.

«O sangue não é tudo, nunca foi»

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