Rapte-me, Camaleão
solidão, relacionamentos, melancolia, introspecção
Matheus Lopes Quirino No fundo eu me sinto sozinha, e, por mais que eu me esforce, que olhe para ele, que sinta o friozinho passar pelo meu rodopio, circunferência de saia que dança, gira, escrevo algo como uma elegia, mas sem ritmo: não sei dançar. Os pingos nanicos e frios incrustam o vidro embaçado do táxi a caminho de casa. Chove na cidade, mais um dia. Estamos nos bancos de trás, silentes, eu finjo que não observo. Não sei se ele faz algo que realmente faz. Está tudo embaçado. O momento fica confuso, prossegue: Rua Estados Unidos. O táxi tem cheiro de lavanda. Máscaras. Os ingressos do teatro estão amassados no bolso e não dá para esperar. Há dias ele não me olha nos olhos. Fico sem jeito, não sei, quero subir o tom como antes e não sei se espero para abrir sua porta. Se pulo fora do carro em movimento. Com certeza, não. Ele está ali matutando alto, como eu. Ele não concorda com as minhas piscadelas. Está absorto, talvez contando os pingos que tentam passar a barreira de vidro temperado. Era para ser agora, virando a esquina da Oscar com a Ministro Rocha Azevedo. Ele continua distante, como uma ilha vista de muito longe por um farol fincado em uma pedra. As luzes da cidade focam os perdigotos que deus manda para baixo. Prateada, lembro da música da Gal, mas também de uma banda inglesa dos anos 1960 que ninguém conhece uma música só. Não dá para cantar nesse dia chuvoso. Nem no carro, nem no banheiro, nem dentro da própria cabeça, na calçada, no chuveiro. Ele não faz o mínimo de esforço para surpreender. Estamos nos aproximando do centro da cidade, seus olhos estão repletos de ternura observando a chuva. Ele respira ternura. Ele é Odara dos cabelos dourados. Ao meu lado. Ofélia. Ele tem os dedos bonitos. Tereza Cristina. Seus olhos. Âmbar. Seu dengo. Maria Bethânia. Sua boca. Iris. A cena. Vênus. O respirar. Dueñas. O existir. Melinda. Irresistível. Eu suspiro por cada mulher inalcançável. E meus olhos reparam nas veias que são mal cobertas pela pele branca. Veias verdes e azuis. Quase como um camaleão escondido da chuva, no trânsito, bem ali. Mais meio emaranhado de dedos e dois labirintos de impressões digitais se chocando. Ao longo do dia, mudo eu de todas as cores. E sorrio como se meus olhos borrassem com toda essa chuva que anda fazendo. Rapte-me, Camaleão.
Texto originalmente publicado em Revista Fina