Por Vinícius Pereira Reis Barbosa

Apesar de neste blog nós partilharmos a respeito de temas que fazem parte do nosso cotidiano ou que estão relacionados ao nosso interesse e perspectiva, junto a nossa intenção de tornar públicas as nossas opiniões, prezamos também pelo exercício da nossa criatividade, produção e uma favorável ampliação do nosso senso crítico. Por causa disso, não deixo de levar em conta a infinidade de idéias que, consequentemente, surgem através deste grande incentivo. Mas, e se nós mesmos fôssemos esta idéia? É exatamente isso que você está lendo: E se o homem parasse para analisar o homem acerca de elementos que compõem a análise do que está ao seu redor e consequentemente dele mesmo. Isso justificaria um pouco do que somos? E se justificasse, apenas isso bastaria?

Neste momento, me senti inclinado a refletir sobre o ser humano utilizando também como ponto de vista não só o que ele é, mas o que ele deve ser. Essa perspectiva é ligeiramente justificada pelo fato de sermos um produto do meio em que vivemos, levando em consideração que, se esse meio em que vivemos nos oferece algo em que possamos nos basear, então esse algo, que eu entendo que sejam fatos ou seres humanos, deve seguir um paradigma dentre vários, que no geral, farão que esse meio norteie ou não as nossas atitudes. Esse paradigma, meu caro leitor, pode ser traduzido nas nossas metas pessoais ou ideais que nos fazem aceitar o ser humano não mais como apenas mais um organismo vivo que é capaz de pensar, mas como o ser humano que, aliado a todo seu contexto pessoal e existencial, busca sempre preencher o seu vazio visando algo que lhe sirva de apoio e inspiração em meio às dificuldades que a vida oferece: Uma Religião.

Estudo

A partir dessa idéia, como cristão, comecei a ler a Bíblia em busca de respostas: Algo que descreva para mim o quebra-cabeças que é a mente do ser humano, lançando como pressuposto e como citado anteriormente a sua existência (corpo, ser, etc.) e a sua vontade de existir (essência, alma, etc.), objetivando também não provar algo para os outros, mas para mim mesmo. E para aproveitar o ensejo, convido você leitor a viajar comigo nesse mundo de desdobramentos históricos aparentemente remotos, mas ao mesmo tempo tão presentes e reais nas nossas vidas.

Acerca deste estudo que com brevidade vou demonstrar, queria com antecedência lembrar que o mesmo é feito visando à obtenção de um conhecimento mais elaborado do homem e do que ele acredita, e não algo que venha a despertar a curiosidade em relação a assuntos que envolvem questões polêmicas ou discriminatórias religiosas que, a depender do leitor, precisam de esclarecimentos que ele mesmo deve também estar disposto a ouvir. Junto a esse pressuposto, proponho que o leitor desperte primeiro o interesse que este tipo de interpretação torna necessário, afim de que por conseguinte seja desperta aos poucos em si uma maneira cristã de aceitação de determinados acontecimentos que, diretamente ou não, revelam aspectos-chave que lançaremos mão durante todo o estudo. Este, por sua vez, nos mostrará que o estudante, para se tornar desde um filósofo, teólogo ou exegeta, até um cientista, engenheiro ou advogado, deve passar primeiro pela curiosidade e pelo interesse (algo que eu quero enfatizar nesse texto), mais um motivo pelo qual a Bíblia se torna acessível a todos que queiram aprender com ela.

Como exemplo, queria dar um breve demonstrativo de um estudo bíblico que eu fiz do livro do Genesis, capítulo 2, versículos de 15 a 25 (Gn 2,15-25) e do capítulo 3 versículo 1 (Gn 3,1).

1) Capítulo 2, Versículo 21:“Então Javé Deus fez cair um torpor sobre o homem e ele dormiu. Tomou então uma costela do homem e no lugar fez crescer carne.”

Interpretação da passagem:

•Estabelece todo o sentido de doação do homem para se manter nos projetos de Deus, associado a sua submissão.

•O fato de Adão ter adormecido pode repercutir em ele não ter ciência do poder de Deus.

•O fato de Deus ter feito crescer carne no lugar da costela retirada pode significar:

1-      O poder de Deus;

2-      O fato de que uma “costela” a menos não faz diferença a ponto de interferir nos projetos de Deus;

3-      O fato de que deveria haver um sacrifício por parte do homem, só que este sacrifício não necessariamente deveria ser algo palpável e sim uma representação da idéia de doação, partilha e companheirismo (hebraico: homem = ish; mulher = ishah, ah = companheiro/irmão).

(Versículos subseqüentes)

•O motivo pelo qual Deus criou a mulher foi para que ela servisse de companheira para o homem, dando a idéia de que o homem sozinho não poderia cumprir o que Deus designou.

•A carne também é marcada com uma característica particular: Além de representar a nossa composição orgânica (o que nos difere de Deus), denota uma espécie de “união humana” nos levando à idéia de que o homem deve gerar novos semelhantes não mais a partir do osso, ou do barro, o que era possível apenas por Deus.

2) Capítulo 2 Versículo  25: “Ora, o homem e sua mulher estavam nus, porém não sentiam vergonha.”

Interpretação da passagem:

•Uma possível definição de “vergonha” seria um sentimento de resguardo interior dado em função da diferença entre os dois indivíduos, já que até o momento eles se viam como semelhantes um do outro.

•O sentimento de companheirismo, junto à pureza vinda originalmente de Deus, impede que surja qualquer sentimento que venha a trazer algum tipo de medo, culpa, idéia de diferenciação superficial e consequentemente vergonha.

3) Capítulo 3 Versículo  1: “A serpente era o mais astuto de todos os animais do campo que Javé Deus havia feito. Ela disse para a mulher: “É verdade que Deus disse que vocês não devem comer de nenhuma árvore do jardim?”

•Designação de astúcia para com a serpente.

•Da tradução vinda do hebraico temos como mais próximo de serpente o termo “Nachash” que também é atribuído ao verbo sussurrar, que por sua vez da a idéia de falar às escondidas.

1-      Daí pode-se concluir que Deus aceita aqueles que são transparentes, que não têm nada a esconder d’Ele.

• No hebraico, astúcia tem o mesmo significado de inteligência “Nagib”. Já que este termo é algo explicito na passagem, então

1-      A inteligência também é algo que pode ser utilizado para o mal, não sendo necessariamente algo positivo em todas as circunstâncias.

2-      Se a serpente se utilizou de grande inteligência sorrateiramente, então suas intenções eram más, pois eram escondidas de Deus, que é bom.

3-      “A obediência deve vir antes da malícia”.

4-      Se o homem é criação de Deus que é bom, então ele teria perfeitas condições de se sustentar sem ser por meio do fruto proibido.

5-      Já que a serpente era um anjo, sabia da onipresença de Deus, sussurraria então para dar a impressão à mulher de que Deus não estava ali no momento.

6-      O demônio só obtém sucesso junto à ação humana.

Como deu para perceber, assim como existem diversas interpretações possíveis para apenas duas passagens, já dá pra imaginar o que seria interpretar a Bíblia inteira: Algo extremamente cansativo, longo e trabalhoso. Entretanto, é justamente partindo deste ponto que eu quero enfatizar o fato de que a partir da infinidade de ensinamentos que a Bíblia nos propõe a desfrutar, nós podemos também interpretar elementos importantíssimos para nós mesmos, nossa crença e por fim nossa vida, portanto pode e deve ser um estudo gradativo e feito com calma e atenção. Junto a essa conclusão, faço questão de mostrar aqui que esse tipo de experiência para mim tem sido incrível, pois sacia e muito a minha sede de conhecimento ao mesmo tempo em que me afasta de certas coisas que o homem oferece que antes só me destruíam e me desanimavam, coisas que deixam a mente inerte e isolada de desafios.

Para concluir, espero que este “testemunho ideológico-demonstrativo” desperte a curiosidade e o desejo pela Palavra de Deus assim como as novas possibilidades científicas e conclusões que podem ser extraídas dela. Muitos cristãos realmente não têm idéia da beleza que está contida na Bíblia e também do que se pode entender ao interpretá-la. Mais uma vez retomo o convite.

A Bíblia