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Jul25
Maria do Rosário Pedreira
Ao terceiro dia de vida, Antonio Borjas Romero foi deixado nos degraus de uma igreja, numa rua que hoje tem o seu nome. Ninguém soube dizer exatamente em que data foi encontrado, só se sabe que uma mulher muito pobre tinha o hábito de se sentar ali todas as manhãs, sempre no mesmo sítio, com uma malga de cabaça à sua frente e uma mão frágil estendida a quem passava no adro. Quando viu o bebé, repudiou-o com um gesto de repugnância. Mas a sua atenção foi atraída subitamente por uma caixinha brilhante, escondida entre as dobras da roupa, que alguém ali tinha deixado, como se fosse uma oferenda. Um retângulo de lata, de cor prateada, com arabescos finos gravados. Era uma máquina de enrolar tabaco. Roubou-a e meteu-a no bolso do vestido, desinteressando-se do bebé. Contudo, durante a manhã, apercebeu-se de que os seus tímidos vagidos, os seus gritos hesitantes comoviam os fiéis, que, julgando-os juntos, iam sucessivamente enchendo o fundo da malga com moedas de cobre. Ao chegar a noite, levou-o para um curral, encostou-lhe a boca à teta de uma cabra preta coberta de moscas e, de joelhos debaixo da barriga da cabra, pô-lo a mamar um leite espesso e quente. No dia seguinte, embrulhou-o num pano da cozinha e prendeu-o às ancas. Ao fim de uma semana, começou a dizer que o menino era dela.
Miguel Bonnefoy, O Sonho do Jaguar, tradução de Luísa Benvinda Álvares